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24 marzo DENÚNCIANÃO MATARAM UM CIDADÃO. NÃO MATARAM UM HOMEM. MATARAM UM NEGRO
Por João Batista do Lago[1]
Acabo de assistir no “Jornal Nacional” (Rede Globo de TV) a notícia de mais um massacre perpetrado contra mais um brasileiro, contra mais um cidadão, contra mais um cidadão negro. Contra mais um negro. Desta feita a vítima (cantor e repentista) era maranhense ou morava em São Luis, capital do Estado do Maranhão, onde nasci. A reportagem da TV Globo não trouxe muitos detalhes sobre o crime. Disse tão-somente que ele, o cidadão negro, fora assassinado por dois policiais (Expedito e Paulo) e que fora confundido, ou seja, a milícia pensou que ele era um assaltante. Fato alvissareiro (se é que se pode dizer isso) é que a alta cúpula da Polícia estadual já admitira que os policiais, já identificados, cometeram de fato o assassinato. Não era minha intenção escrever nada sobre esse fato, mesmo porque estou fora do Maranhão e de São Luis há muito tempo. Minha intenção era apenas refletir sobre o fenômeno. Mas para meu espanto, ao chegar a este “cavalo eletrônico” encontrei minha caixa de recados entulhada de e-mail’s de autoria de amigos e amigas que ainda mantenho por lá, além de outro tanto de pessoas que não as conheço, mas que (não sei explicar as razões) pediam-me para escrever sobre esse animalesco crime; além do pedido emocionado do editor deste portal, para que eu escrevesse algo sobre esse fenômeno. Fenômeno?! Sim, fenômeno! Tomo esse evento como um fenômeno sob os olhos da Filosofia que vê, e indica o que é “aparente” em uma “Coisa”, em contraposição ao que ela é em si mesma. Chamo-o de fenômeno porque traz em si a idéia de que o conhecimento humano jamais pode levar em consideração a realidade de modo absoluto e objetivo, mas perceber as suas “aparências” periféricas imanentes na formação do homem brasileiro – ou seja, exatamente o fenômeno da racialidade brasileira. É exatamente nesse ponto, ou seja, distanciando-me da realidade absoluta e objetiva, da coisa em si, do crime de fato, para perceber concretamente que a morte desse cidadão negro revela a face oculta do racismo nativo que é imanente, imperioso e imperante na formação do homem e da cultura brasileiras. Aos meus olhos, esse trucidamento (como tantos outros que deles sequer temos conhecimento pelo Brasil afora) não deve ser visto pura e tão-somente como uma ação nefasta dos policiais contra cidadãos comuns; mas como um saldo do caldo de cultura que reside, ainda hoje, na macroestrutura do “Estado Terrorista”, seja ele federativo ou nacional, que mantém uma tipologia de aparelho policial repressivo, repressor, excludente e racista, onde o cidadão negro ainda (ou quase sempre) é visto por esse mesmo “Estado Terrorista”, assim como pela maioria da sociedade em que vivemos, como a “aparente coisa”, ou seja, como aquele que aparenta, pela cor da tez, todo crime, todo mau, toda malvadeza, toda perversidade, toda sinistrose. Isso, infelizmente, ainda é o rescaldo do colonizador que arrastamos pelos séculos amém. É, pois, fundamental que saibamos analisar esse fenômeno como uma manifestação de racismo e preconceito, que não está tão-somente na ação assassina dos policiais, mas sobremodo, instalada numa falsa democracia racial existente apenas para uma intelectualidade de inocentes úteis, defensores contumazes deste “Estado Terrorista” brasileiro. 07 marzo OS RICOS, OS POBRES E A GLOBALIZAÇÃO
Questionar a globalização e suas conseqüências dá-nos a impressão de malhar em ferro frio. Mas será isso mesmo? Devemos nos acomodar e aceitá-la sem quaisquer questionamentos? Devemos admitir, por definitivo, que o Mercado é o nosso “deus”? Devemos introjetar no nosso existir a submissão absoluta às rezas da igreja global? Devemos aceitar a demonização dos que insistem em discordar dos métodos e das metodologias dessa igreja? Essas são questões reflexivas... Dizem os apologistas da globalização, ainda hoje, que ela é a medida exata para diminuir as distâncias entre pobres e ricos; que cabe aos mercados ditar as regras; que compete aos mercados propor e gerir as diferenças entre ricos, novos ricos, pobres e miseráveis. Será isto uma verdade insofismável? Será isso o que vem ocorrendo? Ou será que as nações pobres estão ficando miseráveis e as nações ricas mais trilhardárias, aprofundando assim ainda mais as diferenças? Essas são questões reflexivas... Aos meus olhos, a globalização, é um engodo. É a forma mais sutil, porém a mais vil, a mais estúpida e a mais selvagem fonte de dominação de povos e nações pobres e miseráveis por parte das nações ricas. A queda das tais barreiras comerciais não passa de pura desterritorialização dos Estados-Nação que, assim, ficam vulneráveis e unicamente dependentes de um tipo de capital virtual que, num clique pode varrer do mapa nações e povos do terceiro, quarto ou quinto mundos. Mas assim como para toda e qualquer ação temos uma contra-ação natural e original, assim está ocorrendo com a globalização (e não é de hoje!) que teimava em não mostrar, em segregar, em esconder, em reprimir a miséria e a pobreza existentes no mundo, sob o discurso de que o mercado iria resolver tais questões. Ledo engano. Os formuladores da globalização jamais imaginariam que a miséria e a pobreza, com a queda das tais barreiras comerciais, também se introduziriam como mercadoria ou moeda de exportação. E agora o que fazer com esse paradigma? Pois é. Esqueceram-se os ideólogos da globalização que a pobreza e a miséria poderiam constituir-se em causa-efeito desse mesmo paradigma universal: a globalização. Paradoxalmente essa mesmíssima globalização que serve para engordar a “burrinha” dos ricos, não dimensionaria uma vertente: a migração da pobreza e da miséria que se estão espalhando pelos seus quintais, noutras palavras, que se estão globalizando entre as nações ricas. Em Londres (Inglaterra), por exemplo, jamais se vira, antes do advento da globalização, vendedores de hot-dog em frente ao palácio da rainha-mãe, que chegou inclusive a ficar incomodada (e reclamar) com o odor que exalava do apetitoso “cachorro quente”, bem conhecido entre nós, brasileiros. Esse é apenas um exemplo emblemático e com todas as tintas para a pintura de quadro surracionalista. Quanta ironia! |
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