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28 maggio PASSAGEIRO DO EUPASSAGEIRO DO EU
Por João Batista do Lago
Sou-me – de mim -, apenas eu – e eu mesmo -, passageiro da própria passagem.
Espelhado em águas de mares reclusos, como nau perdida em alto mar, tornaram-me (re) excluso de portos seguros.
E assim, de posse da minha lepra e da minha loucura, erguido como representação de anti-poder, jamais fui construído sujeito mensurável para ser calculado.
Fizeram de mim um vivo morto – ou morto vivo! - quando me beijou a face, o patrão, no horto das oliveiras, quando me excluíram e me internaram no palácio dos leprosos.
Venturosos da nau dos loucos, de poderes moucos, estabeleceram no campo das açucenas quermesses de dominações sem quaisquer penas.
E lá recluso, e excluso, de mim e do mundo, açoitado pelo poder como qualquer vagabundo continuo louco, recluso e excluso, passageiro da própria passagem.
A nau – este mundo -, leprosário da minh’alma reflete em águas profundas o impuro narciso do poder num vai-e-vem de ondas mortais de loucos e leprosos.
E agora, já definitivamente condenados, todos – e eu -, passageiro da própria passagem já não encontro portas de saída para enfrentar o meu fetiche... Para deitar minha lepra e minha loucura! 23 maggio DIÁLOGOS DE ATHENAS - Réquiem a São LuisDIÁLOGO DE ATHENAS (Réquiem a São Luis)
Por João Batista do Lago
- Olá, poeta. Há quanto tempo não nos víamos!
- Que olhares, Que visões têm da ilha?
- Carrego ainda olhares de Athenas, Visões de um tempo de querências.
- Ainda bem que podes tê-las, Pois cá não mais a temos... Tudo é demência!
- Da arte que conhecestes pouca coisa restou. Hoje há muita miséria, violência e dor,
os jardins da cidade não têm mais flores, as rosas sumiram, os jasmins secaram.
Sobraram as dores dos desamores e a cidade poeta virou bandida.
Hoje as almas são dormentes ambulantes De um bonde carregado de miseráveis,
de miseráveis criaturas sem espaço, sem rosto, sem fé, vermes sem sacristia,
carentes e tolos viventes de vida sem vida, sem qualquer guarida de telhados e azulejos,
sem histórias, sem eira nem beira, sem mar e sem praias, sem sal e sem terra.
Ó, poeta, as gentes dessa cidade já não têm sol
e nem mesmo a lua flutua em suas almas para lhes sincronizar a sinfonia de Dionísio,
pois elas perderam o riso da harmonia e se tornaram almas mortas de agonias.
A cidade, poeta, hoje é “apenas” alma que pena suas dores e seus horrores,
dissimulada de Athenas sem cantores, sem poetas, sem poesia,
ilhada no besteirol da vaidade comum pensada, apenas, na vermelha lama do consumo.
É assim, hoje, a tua ilha: cercada de grilhões que aprisionam Prometeus nas rochas da ignomínia,
que favorecem os tufões da incompetência que se sentam à mesa dos poderosos
e diante de um lauto manjar exigem dos poetas a continência,
exigem toda reverência para lhes legitimar toda incompetência.
Poeta... Perdemos os telhados. Todos os telhados perdemos.
Perdemos as sacadas. Todas as sacadas perdemos.
Perdemos nossas ruas. Todas as ruas perdemos.
Perdemos nossas fontes. Todas as fontes perdemos.
Não temos telhados, nem as sacadas temos.
Não temos ruas, nem as fontes temos.
Estamos sós... Ilhados estamos. Perdidos – todos – somos, poeta. 21 maggio THEMISThemis
Por João Batista do Lago
Themis, terra minha que me fez errante Bendita seja! Ó tu que me castigaste a vida Que não me quisestes ter por Zeus Olhai o pranto que derramo Nos prados de almas tantas Infecundas almas de desamores Que se tornaram lentamente Sepulcro de minhas dores E lá do fundo da ossatura do meu viver Ainda resiste um amor infinito Desde a adolescência do nosso tempo Marcado como ferro em brasa Ferida jamais fechada Porta aberta para tua entrada Em qualquer momento da eternidade - qualquer eternidade – Que porventura um dia me pretendas dar
AMOR ANIMALAMOR ANIMAL
Por João Batista do Lago
Como um animal domesticado Aprendi a seguir os teus passos Na ânsia de encontrar os abraços Vindos do teu corpo sem pecado
Ah, os doces e ternos afagos... Mimos, carinhos e ternos beijos Fizeram de mim o teu escravo E pregaram-me na cruz dos desejos
Agora te sou eternamente grato Por esse louco amor apaixonado Mesmo que dele apenas sobra tenha
Ainda assim apaixonado sou Pela volúpia contumaz do teu corpo Que me faz capaz de tanto amor
Curitiba- Paraná/2007 |
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