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Viajando no "Veleiro" de Manoel de Andrade

VIAJANDO NO VELEIRO DE MANOEL DE ANDRADE

 

© De João Batista do Lago[1]

 

A saudade é um sentimento que soi ocorre à língua portuguesa tentar expressá-la concretamente, realmente.

Nenhum outro idioma consegue, como o português, aproximar-se desse fenômeno que invade a alma humana e que, por mais que nos expressemos, seja por que forma ou género for, sempre faltará “algo” que jamais conseguirá ser dito a respeito desse “sujeito” que é gerado abstrativamente no mais íntimo de cada um.

A saudade é um substantivo feminino abstrato.

Isso, de per se, revela o grau das dificuldades que temos em “tra-duzir”, ou seja, transportar o sentimento para a palavra (fala = língua) falada, escrita ou ideografada, exatamente porque esse sentimento é sempre uma abstração ou é, sempre fruto do abstrato existencial do ser.

Agora, quem dentre os mortais que falam o idioma português mais se aproxima de expressar, concretamente, esse fenômeno?

Ouso responder:

- O Artista. Sim, os artistas são em-si, de-si, para-si e para além-de-si o ser e o tempo, que há um só tempo sugerem a cri-ação da transferência do sentimento para o campo real, isto é, para realidade temporal, pois são os senhores dos sentimentos e das sensações.

Agora, quem dentre os mortais artistas que falam o idioma protuguês são capazes de, ainda mais, se aproximarem da concreção desse sentimento, dessa sensação:

Ouso responder:

- Os Poetas. Estes pintam quadros imaginários de todos os tamanhos, de todas as cores, de todos os graus, de todas as dimensões, de todas as gradações, com todos os amores ou com todos os horrores possíveis e impossíveis à capacidade de observação do indivíduo. E mais: em todo Ser; em todo Espaço.

 

* * * * *

 

Este micro comentário introdutório me foi exigido a partir de uma tipologia de auto-analítica do conhecimento para poder falar sobre “uma” (enfatizo uma porque há muitas outras de igual beleza estético-conteudística) poesia (poesia e não tão-somente Soneto) de um poeta que o conheci recentemente: Manoel de Andrade, que estreou recentemente um livro de poesias editado pela editora Escritura, e que já aparece na lista dos 100 mais vendidos.

 

Esta é a poesia:

 

VELEIRO

 

Mar afora, mar adentro

lá vai singrando um veleiro

quem dera ser passageiro

pra correr nas mãos do vento.

 

Mar adentro, mar afora

como navega ligeiro

cruzando este golfo inteiro

nas cores vivas da aurora.

 

Onde vais assim tão cedo

rumo à Ilha do Arvoredo

levando meu coração…?

 

Vou navegando contigo

meus olhos te seguem, amigo,

perdidos na imensidão.

__________

Baia de Zimbros, janeiro de 2005.

Do livro CANTARES, editado pela Escritura.

 

À primeira vista, ou seja, à primeira leitura somos tomados por um sentimento de jovialidade. Explico: se não lemos esta poesia com os olhos de ver e com a consciência do entendimento, com um certo grau de conhecimento ontológico, podemos tê-la e vê-la como uma poesia principiante, e de principiante. Ledo engano! E quão maravilhoso engano percebe-se quando a lemos uma, duas, três… vezes.

Veleiro” é dessas poesias que nos chegam ao íntimo sem a marca do tempo cronológico, sem o emblema de um espaço pré-definido ou definido, além do Tempo e do Espaço que são-de-si essentes. “Veleiro” é atemporal! E aqui reside, desde sempre, o “segredo” desta poesia: é um Universal! E que Universal é este?: a Alma! E que alma é esta?: a Saudade!

Cada palavra-contexto desta poesia é produzida de saudade com a alma da saudade: passageiro singrando um mar externo e externo de sentimentos e sensações.

Ensina-nos o “velho” Hegel que a Alma sensitiva tem três estágios: (1) a alma senciente em sua IMEDIATIDADE – (quem dera ser passageiro) -, ou vida de sentimento, uma vaga consciência da condição corpórea, associada principalmente à vida intra-uterina; (2) o sentimento de si – (cruzando este golfo inteiro) -, uma vaga consciência de si como indivíduo em contraste com, mas não absorvido em, seus sentimentos particulares: egoísmo, por exemplo, o que é diferente de autoconsciência reflexiva; (3) o hábito, no qual, por constante repetição, sensações e sentimentos tornam-se familiares e, portanto, menos salientes – (levando meu coração… meus olhos te seguem, amigo). Ter hábito é distanciar-se, melhor dizendo, libertar-se dos sentimentos e das sensações. Ou seja: “Veleiro” é o sentimento e a sensação interiorizados e externalizados, mas desprendidos do Eu, o que em essência gera a “alma real”, noutras palavras: a consciência do si, de-si e no em-si.

Enfim, “Veleiro”, aos meus olhos, é um eterno vir a ser num “mar adentro/ mar afora” do “sujeito abstrato” que pretende ser-si  “sujeito real” num eterno (= temporalidade) vir-a-ser a idéia essente, ou seja, o sujeito real capaz de tran(s)-duzir-si em consciência plena.

lá vai sangrando um veleiro” indica, pois, aos meus olhos, um corpo de pensamentos que impulsionam à Verdade; o “golfo” é a porta de passagem para o conhecimento dessa verdade, ou seja: “rumo à Ilha do Arvoredo/ levando meu coração…”; “mar afora, mar adentro”, a teimosia, ou seja, as dúvidas dessa travessia para o conhecimento.

É assim, pois, que vejo esta poesia de Manoel de Andrade. Contudo, sugiro que adquiram o livro CANTARES, onde vocês, caros leitores, vão-se deliciar com a poética desse autor que me orgulha havê-lo conhecido.

 

Hasta la vista!!!

__________


Cantares
Autor: Manoel de Andrade
Editora: Escrituras
Páginas: 112
Formato: 14 x 21 cm
ISBN: 978-85-7531-256-8
Preço: R$ 20,00

Escrituras Editora
Rua Maestro Callia, 123 - Vila Mariana
04012-100 - São Paulo-SP
Novos telefones: (11) 5904-4499



[1] João Batista do Lago é jornalista, poeta, escritor, ensaísta e pesquisador. É maranhense, mas reside em Curitiba há  anos.

Viajando no "Veleiro" de Manoel de Andrade

VIAJANDO NO VELEIRO DE MANOEL DE ANDRADE

 

© De João Batista do Lago[1]

 

A saudade é um sentimento que soi ocorre à língua portuguesa tentar expressá-la concretamente, realmente.

Nenhum outro idioma consegue, como o português, aproximar-se desse fenômeno que invade a alma humana e que, por mais que nos expressemos, seja por que forma ou género for, sempre faltará “algo” que jamais conseguirá ser dito a respeito desse “sujeito” que é gerado abstrativamente no mais íntimo de cada um.

A saudade é um substantivo feminino abstrato.

Isso, de per se, revela o grau das dificuldades que temos em “tra-duzir”, ou seja, transportar o sentimento para a palavra (fala = língua) falada, escrita ou ideografada, exatamente porque esse sentimento é sempre uma abstração ou é, sempre fruto do abstrato existencial do ser.

Agora, quem dentre os mortais que falam o idioma português mais se aproxima de expressar, concretamente, esse fenômeno?

Ouso responder:

- O Artista. Sim, os artistas são em-si, de-si, para-si e para além-de-si o ser e o tempo, que há um só tempo sugerem a cri-ação da transferência do sentimento para o campo real, isto é, para realidade temporal, pois são os senhores dos sentimentos e das sensações.

Agora, quem dentre os mortais artistas que falam o idioma protuguês são capazes de, ainda mais, se aproximarem da concreção desse sentimento, dessa sensação:

Ouso responder:

- Os Poetas. Estes pintam quadros imaginários de todos os tamanhos, de todas as cores, de todos os graus, de todas as dimensões, de todas as gradações, com todos os amores ou com todos os horrores possíveis e impossíveis à capacidade de observação do indivíduo. E mais: em todo Ser; em todo Espaço.

 

* * * * *

 

Este micro comentário introdutório me foi exigido a partir de uma tipologia de auto-analítica do conhecimento para poder falar sobre “uma” (enfatizo uma porque há muitas outras de igual beleza estético-conteudística) poesia (poesia e não tão-somente Soneto) de um poeta que o conheci recentemente: Manoel de Andrade, que estreou recentemente um livro de poesias editado pela editora Escritura, e que já aparece na lista dos 100 mais vendidos.

 

Esta é a poesia:

 

VELEIRO

 

Mar afora, mar adentro

lá vai singrando um veleiro

quem dera ser passageiro

pra correr nas mãos do vento.

 

Mar adentro, mar afora

como navega ligeiro

cruzando este golfo inteiro

nas cores vivas da aurora.

 

Onde vais assim tão cedo

rumo à Ilha do Arvoredo

levando meu coração…?

 

Vou navegando contigo

meus olhos te seguem, amigo,

perdidos na imensidão.

__________

Baia de Zimbros, janeiro de 2005.

Do livro CANTARES, editado pela Escritura.

 

À primeira vista, ou seja, à primeira leitura somos tomados por um sentimento de jovialidade. Explico: se não lemos esta poesia com os olhos de ver e com a consciência do entendimento, com um certo grau de conhecimento ontológico, podemos tê-la e vê-la como uma poesia principiante, e de principiante. Ledo engano! E quão maravilhoso engano percebe-se quando a lemos uma, duas, três… vezes.

Veleiro” é dessas poesias que nos chegam ao íntimo sem a marca do tempo cronológico, sem o emblema de um espaço pré-definido ou definido, além do Tempo e do Espaço que são-de-si essentes. “Veleiro” é atemporal! E aqui reside, desde sempre, o “segredo” desta poesia: é um Universal! E que Universal é este?: a Alma! E que alma é esta?: a Saudade!

Cada palavra-contexto desta poesia é produzida de saudade com a alma da saudade: passageiro singrando um mar externo e externo de sentimentos e sensações.

Ensina-nos o “velho” Hegel que a Alma sensitiva tem três estágios: (1) a alma senciente em sua IMEDIATIDADE – (quem dera ser passageiro) -, ou vida de sentimento, uma vaga consciência da condição corpórea, associada principalmente à vida intra-uterina; (2) o sentimento de si – (cruzando este golfo inteiro) -, uma vaga consciência de si como indivíduo em contraste com, mas não absorvido em, seus sentimentos particulares: egoísmo, por exemplo, o que é diferente de autoconsciência reflexiva; (3) o hábito, no qual, por constante repetição, sensações e sentimentos tornam-se familiares e, portanto, menos salientes – (levando meu coração… meus olhos te seguem, amigo). Ter hábito é distanciar-se, melhor dizendo, libertar-se dos sentimentos e das sensações. Ou seja: “Veleiro” é o sentimento e a sensação interiorizados e externalizados, mas desprendidos do Eu, o que em essência gera a “alma real”, noutras palavras: a consciência do si, de-si e no em-si.

Enfim, “Veleiro”, aos meus olhos, é um eterno vir a ser num “mar adentro/ mar afora” do “sujeito abstrato” que pretende ser-si  “sujeito real” num eterno (= temporalidade) vir-a-ser a idéia essente, ou seja, o sujeito real capaz de tran(s)-duzir-si em consciência plena.

lá vai sangrando um veleiro” indica, pois, aos meus olhos, um corpo de pensamentos que impulsionam à Verdade; o “golfo” é a porta de passagem para o conhecimento dessa verdade, ou seja: “rumo à Ilha do Arvoredo/ levando meu coração…”; “mar afora, mar adentro”, a teimosia, ou seja, as dúvidas dessa travessia para o conhecimento.

É assim, pois, que vejo esta poesia de Manoel de Andrade. Contudo, sugiro que adquiram o livro CANTARES, onde vocês, caros leitores, vão-se deliciar com a poética desse autor que me orgulha havê-lo conhecido.

 

Hasta la vista!!!

__________


Cantares
Autor: Manoel de Andrade
Editora: Escrituras
Páginas: 112
Formato: 14 x 21 cm
ISBN: 978-85-7531-256-8
Preço: R$ 20,00

Escrituras Editora
Rua Maestro Callia, 123 - Vila Mariana
04012-100 - São Paulo-SP
Novos telefones: (11) 5904-4499



[1] João Batista do Lago é jornalista, poeta, escritor, ensaísta e pesquisador. É maranhense, mas reside em Curitiba há  anos.

Viajando no "Veleiro" de Manoel de Andrade

VIAJANDO NO VELEIRO DE MANOEL DE ANDRADE

 

© De João Batista do Lago[1]

 

A saudade é um sentimento que soi ocorre à língua portuguesa tentar expressá-la concretamente, realmente.

Nenhum outro idioma consegue, como o português, aproximar-se desse fenômeno que invade a alma humana e que, por mais que nos expressemos, seja por que forma ou género for, sempre faltará “algo” que jamais conseguirá ser dito a respeito desse “sujeito” que é gerado abstrativamente no mais íntimo de cada um.

A saudade é um substantivo feminino abstrato.

Isso, de per se, revela o grau das dificuldades que temos em “tra-duzir”, ou seja, transportar o sentimento para a palavra (fala = língua) falada, escrita ou ideografada, exatamente porque esse sentimento é sempre uma abstração ou é, sempre fruto do abstrato existencial do ser.

Agora, quem dentre os mortais que falam o idioma português mais se aproxima de expressar, concretamente, esse fenômeno?

Ouso responder:

- O Artista. Sim, os artistas são em-si, de-si, para-si e para além-de-si o ser e o tempo, que há um só tempo sugerem a cri-ação da transferência do sentimento para o campo real, isto é, para realidade temporal, pois são os senhores dos sentimentos e das sensações.

Agora, quem dentre os mortais artistas que falam o idioma protuguês são capazes de, ainda mais, se aproximarem da concreção desse sentimento, dessa sensação:

Ouso responder:

- Os Poetas. Estes pintam quadros imaginários de todos os tamanhos, de todas as cores, de todos os graus, de todas as dimensões, de todas as gradações, com todos os amores ou com todos os horrores possíveis e impossíveis à capacidade de observação do indivíduo. E mais: em todo Ser; em todo Espaço.

 

* * * * *

 

Este micro comentário introdutório me foi exigido a partir de uma tipologia de auto-analítica do conhecimento para poder falar sobre “uma” (enfatizo uma porque há muitas outras de igual beleza estético-conteudística) poesia (poesia e não tão-somente Soneto) de um poeta que o conheci recentemente: Manoel de Andrade, que estreou recentemente um livro de poesias editado pela editora Escritura, e que já aparece na lista dos 100 mais vendidos.

 

Esta é a poesia:

 

VELEIRO

 

Mar afora, mar adentro

lá vai singrando um veleiro

quem dera ser passageiro

pra correr nas mãos do vento.

 

Mar adentro, mar afora

como navega ligeiro

cruzando este golfo inteiro

nas cores vivas da aurora.

 

Onde vais assim tão cedo

rumo à Ilha do Arvoredo

levando meu coração…?

 

Vou navegando contigo

meus olhos te seguem, amigo,

perdidos na imensidão.

__________

Baia de Zimbros, janeiro de 2005.

Do livro CANTARES, editado pela Escritura.

 

À primeira vista, ou seja, à primeira leitura somos tomados por um sentimento de jovialidade. Explico: se não lemos esta poesia com os olhos de ver e com a consciência do entendimento, com um certo grau de conhecimento ontológico, podemos tê-la e vê-la como uma poesia principiante, e de principiante. Ledo engano! E quão maravilhoso engano percebe-se quando a lemos uma, duas, três… vezes.

Veleiro” é dessas poesias que nos chegam ao íntimo sem a marca do tempo cronológico, sem o emblema de um espaço pré-definido ou definido, além do Tempo e do Espaço que são-de-si essentes. “Veleiro” é atemporal! E aqui reside, desde sempre, o “segredo” desta poesia: é um Universal! E que Universal é este?: a Alma! E que alma é esta?: a Saudade!

Cada palavra-contexto desta poesia é produzida de saudade com a alma da saudade: passageiro singrando um mar externo e externo de sentimentos e sensações.

Ensina-nos o “velho” Hegel que a Alma sensitiva tem três estágios: (1) a alma senciente em sua IMEDIATIDADE – (quem dera ser passageiro) -, ou vida de sentimento, uma vaga consciência da condição corpórea, associada principalmente à vida intra-uterina; (2) o sentimento de si – (cruzando este golfo inteiro) -, uma vaga consciência de si como indivíduo em contraste com, mas não absorvido em, seus sentimentos particulares: egoísmo, por exemplo, o que é diferente de autoconsciência reflexiva; (3) o hábito, no qual, por constante repetição, sensações e sentimentos tornam-se familiares e, portanto, menos salientes – (levando meu coração… meus olhos te seguem, amigo). Ter hábito é distanciar-se, melhor dizendo, libertar-se dos sentimentos e das sensações. Ou seja: “Veleiro” é o sentimento e a sensação interiorizados e externalizados, mas desprendidos do Eu, o que em essência gera a “alma real”, noutras palavras: a consciência do si, de-si e no em-si.

Enfim, “Veleiro”, aos meus olhos, é um eterno vir a ser num “mar adentro/ mar afora” do “sujeito abstrato” que pretende ser-si  “sujeito real” num eterno (= temporalidade) vir-a-ser a idéia essente, ou seja, o sujeito real capaz de tran(s)-duzir-si em consciência plena.

lá vai sangrando um veleiro” indica, pois, aos meus olhos, um corpo de pensamentos que impulsionam à Verdade; o “golfo” é a porta de passagem para o conhecimento dessa verdade, ou seja: “rumo à Ilha do Arvoredo/ levando meu coração…”; “mar afora, mar adentro”, a teimosia, ou seja, as dúvidas dessa travessia para o conhecimento.

É assim, pois, que vejo esta poesia de Manoel de Andrade. Contudo, sugiro que adquiram o livro CANTARES, onde vocês, caros leitores, vão-se deliciar com a poética desse autor que me orgulha havê-lo conhecido.

 

Hasta la vista!!!

__________


Cantares
Autor: Manoel de Andrade
Editora: Escrituras
Páginas: 112
Formato: 14 x 21 cm
ISBN: 978-85-7531-256-8
Preço: R$ 20,00

Escrituras Editora
Rua Maestro Callia, 123 - Vila Mariana
04012-100 - São Paulo-SP
Novos telefones: (11) 5904-4499



[1] João Batista do Lago é jornalista, poeta, escritor, ensaísta e pesquisador. É maranhense, mas reside em Curitiba há  anos.

SÁBADO POÉTICO

PARMÊNIDES DE ELÉIA – O Poeta do Ser

 

Por João Batista do Lago

 

Ao iniciar este artigo devo dar conta do apaixonante amor que sinto pelo universo helênico. Trago em mim a concepção, melhor dizendo, a convicção conceitual que, ainda hoje, “sofremos” deste mundo arcaico – o mundo Grego -, da conflituosidade do Ser e do não-Ser, assim como todas as suas conseqüências deletérias, insalubres ou mesmo venenosas para o estudo da ontologia ou da metafísica (ambas definem o estudo do ser em geral).

Quando digo sofremos tenho a nítida intenção de dizer, de inferir, que continuamos “atolados” no pântano das incertezas humanas. Ainda hoje nos perguntamos: o que somos? O que fazemos aqui? Qual a função e o papel que exercemos? Qual a nossa destinação? Enfim...

Ainda hoje não nos contentamos com quaisquer respostas.

Ainda hoje continuamos vasculhando o mais profundo de nossas cavernas na tentativa de nos descobrir, de nos desvendar, de nos desvelar, de nos revelar...

E para isso utilizamos-nos, o mais que possamos de nossas faculdades mentais na tentativa de sustentar a superioridade da interpretação racional do mundo e a negar a veracidade da percepção sensível.

É exatamente neste ponto que Parmênides de Eléia, me atrai, pois, ver, ouvir, escutar, não produz certezas, apenas crenças e opiniões. Vale destacar que, já aqui, ele assevera que erra quem (como Heráclito, por exemplo) deixa-se enganar pelos sentidos e considera a realidade em devir, pois a transformação – uma passagem do ser a um não-ser – não é em si pensável: o não-ser não é jamais pensável, não mais do que ver a escuridão (o não-ser da luz) ou escutar o silêncio (o não-ser do som).

Neste artigo – insisto - pretendo debruçar-me sobre uma das figuras arcaicas que mais me chamam a atenção no universo helênico: Parmênides de Eléia, a quem defino não como um Filósofo – pura e tão-somente -, mas como um Poeta filosófico, portanto, o Poeta do Ser. É com este poeta eleata que encontramos, ‘conscientemente’, a origem do pensamento racional e, ainda, é com ele que vislumbramos a elaboração do método. Ouso afirmar, por inferição empírica, que, Descartes e Shakespeare, para ficar apenas nestes dois exemplos, por ora, dele se utilizaram. René Descartes é considerado, universalmente, o “pai” da filosofia moderna, e, William Shakespeare é considerado, universalmente, o “pai” do teatro moderno. Em Descartes encontramos a máxima conhecida de todos: “Penso: logo existo”. Em Shakespeare encontramos o aforismo: “Ser ou não-Ser, eis a questão”.

Ora, não é, pois, o Ser e o não-Ser, por excelência, o tema fundamental da poética Parmenidiana? Pois sim!

Podemos dizer assim – e disso falam os filósofos do passado e do presente - desse pensador eleata – Parmênides -, sem medo de cometer nenhum erro, que o filho de Eléia era de uma grandeza perturbadora. O rigor de suas argumentações assim como a profundidade de suas análises levou Platão a defini-lo como “venerando” e “terrível”. Mas não só isso, o filósofo de Athenas – Platão – viu-se obrigado a dedicar um diálogo específico – o Parmênides – ao filho de Eléia; reconhecê-lo como pai espiritual e confessar que ao discordar de algumas reflexões parmenidianas cometeria uma tipologia de “parricídio”.

Fica clara, assim, a imensa admiração que nutro por este poeta-filósofo (e de resto pelo universo grego) que, infelizmente, e apesar dos inúmeros estudos, pesquisas, escavações histórico-arqueológicas, nos legou, da sua obra, tão-somente 154 versos do poema filosófico Sobre a Natureza. Deste proponho, neste artigo, as leituras 10-14 – estruturado em hexâmetros (versos de seis pés) e dividido em duas partes: Verdade e Opinião.

 

EM BUSCA DA VERDADE

 

Nas suas investigações filosóficas Parmênides impõe-se, a si, uma questão até então (hipótese de muitos historiadores) não formulada de maneira tão racional: a busca do conhecimento do que “éVerdade e do que “éOpinião. Ele foge, assim, da visão puramente mítica, religiosa ou teológica – muito embora utilize como campo metafórico o abstracionismo dêitico-mítico tão comum naqueles tempos arcaicos – para inferir a racionalidade da sua abordagem poético-filosófica.

É toda essa densidade simbólica introjetada no pensamento parmenidiano que cria dificuldades de interpretação do poema, sobretudo na parte primeira quando nos remete à metáfora da viagem. Vejamos:

 

As éguas que me levam até onde meu desejo quer chegar me acompanharam, após me conduzirem e me colocarem no caminho que diz muitas coisas,/ que pertence à divindade e que conduz o homem que sabe a todos os lugares./ Para lá fui levado.

 

De fato, para lá me levaram as sagazes éguas, tirando meu carro,/ e as jovens a indicar o caminho./ O eixo do meão soltava um silvo agudo, incandescendo-se (porque premido entre dois rotantes, círculos de um lado e de outro),/ enquanto apressavam o passo, ao me acompanhar, as jovens Filhas do Sol,/ após deixar as casas da Noite, em direção à luz, retirando com as mãos os véus da cabeça.

 

Lá está a porta das veredas da Noite e do Dia,/ tendo nos dois extremos uma arquitrave e um umbral de pedra;/ e a porta, erguida no éter, é fechada por grandes batentes,/ dos quais a Justiça, que muito pune, tem as chaves que abrem e fecham.

 

As jovens, então, dirigem-lhe suaves palavras,/ e sutilmente a persuadem a que os ferrolhos/ sem tardar removessem da porta. E logo esta, ao se abrir,/ dos batentes fez uma vasta abertura, fazendo girar/ nos gonzos, em sentido inverso, os brônzeos umbrais/ ajustados com pregos e com ombreiras. Logo, por lá, através da porta,/ direto para a estrada mestra, as jovens levaram carro e éguas.

 

E a deusa benévola me acolheu, e com a sua mão a minha mão direita tomou,/ e assim começou a falar, dizendo-me:/ “Ó jovem, companheiro de imortais boleeiras, tu, que chegas conduzido pelas éguas à nossa morada, alegra-te, pois não foi infausto o destino que te fez percorrer este caminho/ (de fato ele está fora da via seguida pelos homens), mas a lei divina e a justiça”.

 

“É preciso que tu tudo aprendas:/ o sólido coração da bem redonda Verdade/ e as opiniões dos mortais, nas quais não há verdadeira certeza./ E, no entanto, também isso aprenderás: como as coisas que parecem deviam verdadeiramente ser, sendo todas em todos os sentidos”.

 

Antes de tudo, porém, isto é, antes de definitivamente aventurar-me na análise da poemática do eleata, creio que se faz mister aqui introduzir uma questão que é indispensável para a compreensão da poética filosófica de Parmênides: sua poesia decorre de um processo da formação do universo grego, sobretudo no que consiste à Educação.

Nesse ponto, Parmênides não foge à regra helênica, qual seja, de considerar que a educação é o princípio por meio do qual o universo grego conserva e transmite para o presente (de) então e para a posteridade as peculiaridades físicas e espirituais.

Parmênides entende, desde logo e sempre, que o homem, como espécie animal, continua sendo sempre “um” e a mesma coisa, mas ao mesmo tempo raciocina que somente o Homem consegue disseminar sua condição de ser social, tendo por base a vontade consciente e a razão. Assim é Parmênides!

E ouso dizer: aos meus olhos é com Parmênides que fica clara a idéia de que a Educação tem que ser um processo de construção consciente, mesmo quando, apesar de ou a partir de, admitimos que ele fosse oriundo da poética homérico-hesiódica, que já trouxera a preocupação com a formação do Homem grego, a Paidéia, por intermédio de um processo educativo. Mas é preciso dizer que as configurações homérico-hesiódicas eram construídas a partir do campo mítico, quero dizer, a Educação era, em síntese, uma dádiva dos deuses.

O Ser, para esses poetas era um não-ser de si, ao contrário de Parmênides que inferiu a idéia do Ser de si. Idéia da construção consciente de si. Idéia do pensar a si. Idéia do pensar-se como “sujeito” (do discurso) responsável da categoria do existir – ou seja: do Ser. Idéia, afinal, do Antropocentrismo.

E, para se inserir nesse campo ontológico, Parmênides, criara sua metodologia de investigação a partir de duas categorias: Verdade (alétheia) e Opinião (doxa), isto é, para ele era indispensável estabelecer um método dicotômico, onde, Opinião não passaria de mera crença que se baseia em dados sensíveis e perceptíveis, enquanto que a Verdade era a convicção baseada em argumentações racionais, mesmo quando essas argumentações parecem em total oposição às evidências sensíveis.

 

* * *

 

Faço aqui um (novo) recorte para introduzir uma nova e ousada questão conceitual. Aos meus olhos é com Parmênides que vislumbramos (também) a essência do Discurso, ou seja, da Retórica, que será utilizada no futuro próximo e posterior.

Os sofistas Protágoras (o mais conhecido dos sofistas, após escrever que não se poderia afirmar que os deuses existem nem que não existem, foi acusado de sacrilégio, condenado e banido de Athenas) e Górgias (viajou por toda Grécia exercendo com sucesso a arte da retórica; era acompanhado de reconhecida fama de dialético, capaz de cogitar raciocínios irrefutáveis como “nada existe”, sua tese mais célebre), por exemplo, tornaram-se mestres nessa arte, ao ponto de escandalizarem os filósofos da época ao fazer do saber uma profissão, oferecendo aulas (pagas) de retórica e de eloqüência aos jovens da classe dirigente que pretendiam dedicar-se à carreira política.

Esse movimento é de uma importância histórica fenomenal, pois geraria um cosmopolitismo serial do pensamento e da cultura grega, e em especial da filosofia – em prosa ou verso -, impedindo que o saber grego ficasse, pura e tão-somente, nos limites das províncias helênicas. Os filósofos sofistas tinham por metodologia de ensino o princípio da Razão. Isto lhes valera o epíteto de iluministas gregos.

Pois bem, a poética de Parmênides (também) introduz segundo essa minha observação empírica, o conceito de Verdade no interior do discurso ao propor veemente contestação da corrupção (discordo daqueles que vêm nisso apenas antagonismo) da verdade pela opinião, isto é, ele criara aí a sua dialética meta-ontológica e sustentara (em minhas palavras) que o Ser é o sentido da Verdade e a Verdade o sentido do Ser. Noutras palavras o Ser só “é” quando “é” o Ser.

Assim, no seu discurso poético-filosófico, Parmênides introduz uma tipologia desesperada de necessidade de fazer sentido, de dar sentido, de constituir-se, de impregnar-se da “pura” razão, e então, converte a Verdade na principal figura de linguagem, seja objetiva, seja subjetiva; noutras palavras em Sujeito e em não-Sujeito. É somente por ela que estabelecemos enunciados e conceitos. É somente por causa dela que nos insurgimos - ou não - contra ou a favor do dito e do não-dito. É somente por sua representação que criamos as linguagens culturais, sociais, políticas, econômicas, artísticas, poéticas, etc.

Sem o sentido da verdade ou a verdade do sentido pode-se dizer que tudo o mais não existira. Vida não houvera. E se esta (verdade = ser) não se dera tudo o mais inexistira. Este é o fundamento axiomático antropomórfico do Ser que “é” e do Ser que “não-é”, mas ao mesmo tempo do “Ser que não-é” e do “não-Ser que é”. Essa é a equação complicada do pensamento parmenidiano. Assim é Parmênides!

E essa equação virá a ser sustentada ou negada com veemência no futuro por uma plêiade de pensadores – sobretudo por Platão - do mundo antigo e do mundo moderno.

Tomando, pois, este axioma como verdadeiro poder-se-á aduzir novos argumentos advenientes - ad valorem - como se fora uma advecção transferencial de um tipo de massa metafísica que se movimenta concretamente em direção a um materialismo não-científico, não-histórico ou historicista, mas metarracional, ou se racionaliza no calor do Logos (saber racional = somente o ser pode ser pensado = Verdade) do locutor e do ouvinte (audiência).

É nisso que compreendo a tentativa desesperada de fazer sentido de Parmênides como práxis constitutiva do real e do não-real, principalmente no caso do discurso da forma (Ser), onde se percebe com mais agudeza essa relação hedonista da verdade como fonte de um determinado tipo de prazer imediato do indivíduo que fala, isto é, do sujeito do discurso verdadeiro.

Pois bem, esses primeiros versos – assim podemos defini-los - são o Prólogo do discurso poético ontológico e antropomórfico de Parmênides, inserido nessa perspectiva e tentativa desesperada de fazer da Verdade o sentido do Ser. A verdade é, metaforicamente, uma esfera: homogênea, compacta, única e sempre igual a si mesma.

Se tomarmos como verdadeira essa minha conclusão empírica veremos que, na outra ponta, por assim dizer, do lado oposto à verdade, ocorre a opinião, que ali se encontra presente dentro de um substrato ideológico (não-verdade), mas que pretende desconstruir a verdade para dar-se sentido de verdade. Mais uma vez chamo atenção para o complicado e hermético pensamento parmenidiano, sobretudo nessa parte do poema, onde o autor grego pretende constituir metaforicamente, por definitivo, a verdade como o Ser verdadeiro e imutável, portanto Absoluto, Uno. E é exatamente deste ponto que surge a idéia do monismo parmenidiano.

O complicado jogo de imagens mentais que Parmênides cria para inferir todo o seu conceito de Ser é algo que defino, do ponto de vista estético-semântico - refiro-me especialmente a certo tipo de grafismo visual que permite a audiência “n” significados - de uma beleza incomensurável, e está mesmo concentrado dentro do seu rigor metafórico: é homogêneo, compacto, único e sempre igual a si mesmo; noutras palavras, é mono, é um, é único, é absoluto. Vejamos o que ele se nos apresenta:

 

E a deusa benévola me acolheu, e com a sua mão a minha mão direita tomou,/ e assim começou a falar, dizendo-me:/ “Ó jovem, companheiro de imortais boleeiras, tu, que chegas conduzido pelas éguas à nossa morada, alegra-te, pois não foi infausto o destino que te fez percorrer este caminho/ (de fato ele está fora da via seguida pelos homens), mas a lei divina e a justiça”.

 

Temos, nesta estrofe, uma técnica de criação da imagem abstrata parmenidiana que fica impressa no nosso cérebro como foto, donde se vêm os retalhos de uma construção arquitetônica minuciosamente construída para valorizar mais a forma que o conteúdo do Ser. Essa abstração permênica é primorosíssima! Esse artifício é para construir o significado de outra questão (que veremos com mais vagar à frente): a Verdade com Justiça, pois

 

“É preciso que tu tudo aprendas:/ o sólido coração da bem redonda Verdade/ e as opiniões dos mortais, nas quais não há verdadeira certeza./ E, no entanto, também isso aprenderás: como as coisas que parecem deviam verdadeiramente ser, sendo todas em todos os sentidos”.

 

E essa “forma” vem da inspiração que recebeu de Homero, Hesíodo e das tradições órficas. Contudo, podemos concluir que há aqui (também) uma certa influência pitagórica: a esfera como figura representacional do Ser verdadeiro. Mas, já aqui, devemos parar auscultar, imaginar, perceber, sentir e pensar. Mas não será isso incoerência com o discurso parmenidiano? Pois é! Assim é Parmênides!

Ele nos forçará - desde logo e desde sempre - a nos imbricarmos com a contradição (Ser e não-Ser) entre a verdade e a opinião, e dirá mais à frente que nem todos são capazes de atingir a verdade, ou seja, nem todos irão se constituir em “Ser”, pois continuarão como “éguas” (crentes, sensitivos, perceptivos). Decodifiquemos: poucos se constituirão em “sujeito”, ou, muitos continuarão sendo meros crentes do senso comum, ou seja, niilistas do Ser. Estes são éguas; são conduzidos a lugar nenhum pela opinião que não gera saber e tampouco dar conteúdo ao Ser, ou seja, é preciso abandonar “as casas da Noite, em direção à luz”, isto é, afastar-se da escuridão do senso comum, da pura opinião; para atingir toda a claridade do Sol, e do dia, isto é, toda Sabedoria. Mas isso só pode ser alcançado depois de atravessar as portas que dividem os dois caminhos: o caminho da verdade e o caminho da opinião.

Enfim, podemos dizer desta primeira parte do poema de Parmênides o seguinte: levado num carro em corrida vertiginosa, o herói percorre um caminho que se situa fora das trilhas originais dos seres humanos. São virgens, filhas do Sol, que tomam conta dele em seu percurso para a luz. Abre-se a porta que separa “a estrada do Dia e a estrada da Noite”, e o iniciado chega recebido pela deusa bondosa que o toma pela mão e informa-o de um oráculo duplo: ele saberá tudo da verdade e da crença dos mortais. Por certo se deve ter em mente a aventura do conhecimento que, para além das normas da experiência corriqueira, realiza-se e exprime-se enquanto exprime seu objeto num discurso bem estruturado e corretamente concatenado. Favorecido assim pela revelação, o herói fica sabendo que existem duas estradas, noutras palavras, dois procedimentos, dois métodos ou dois estilos para o (seu) discurso. (Mas disso falaremos mais amiúde na próxima parte deste artigo.)

 

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ESTE ARTIGO TERÁ CONTINUIDADE NO PRÓXIMO “SÁBADO POÉTICO”.

PASSAGEIRO DO EU

PASSAGEIRO DO EU

 

Por João Batista do Lago

 

Sou-me – de mim -,

apenas eu – e eu mesmo -,

passageiro da própria passagem.

 

Espelhado em águas de mares

reclusos, como nau perdida em alto mar,

tornaram-me (re) excluso de portos seguros.

 

E assim, de posse da minha lepra e da minha loucura,

erguido como representação de anti-poder,

jamais fui construído sujeito mensurável para ser calculado.

 

Fizeram de mim um vivo morto – ou morto vivo! -

quando me beijou a face, o patrão, no horto das oliveiras,

quando me excluíram e me internaram no palácio dos leprosos.

 

Venturosos da nau dos loucos, de poderes moucos,

estabeleceram no campo das açucenas

quermesses de dominações sem quaisquer penas.

 

E lá recluso, e excluso, de mim e do mundo,

açoitado pelo poder como qualquer vagabundo

continuo louco, recluso e excluso, passageiro da própria passagem.

 

A nau – este mundo -, leprosário da minh’alma

reflete em águas profundas o impuro narciso do poder

num vai-e-vem de ondas mortais de loucos e leprosos.

 

E agora, já definitivamente condenados, todos – e eu -,

passageiro da própria passagem já não encontro portas de saída

para enfrentar o meu fetiche... Para deitar minha lepra e minha loucura!

DIÁLOGOS DE ATHENAS - Réquiem a São Luis

DIÁLOGO DE ATHENAS

(Réquiem a São Luis)

 

Por João Batista do Lago

 

- Olá, poeta.

Há quanto tempo não nos víamos!

 

- Que olhares,

Que visões têm da ilha?

 

- Carrego ainda olhares de Athenas,

Visões de um tempo de querências.

 

- Ainda bem que podes tê-las,

Pois cá não mais a temos... Tudo é demência!

 

- Da arte que conhecestes pouca coisa restou.

Hoje há muita miséria, violência e dor,

 

os jardins da cidade não têm mais flores,

as rosas sumiram, os jasmins secaram.

 

Sobraram as dores dos desamores

e a cidade poeta virou bandida.

 

Hoje as almas são dormentes ambulantes

De um bonde carregado de miseráveis,

 

de miseráveis criaturas sem espaço,

sem rosto, sem fé, vermes sem sacristia,

 

carentes e tolos viventes de vida sem vida,

sem qualquer guarida de telhados e azulejos,

 

sem histórias, sem eira nem beira,

sem mar e sem praias, sem sal e sem terra.

 

Ó, poeta,

as gentes dessa cidade já não têm sol

 

e nem mesmo a lua flutua em suas almas

para lhes sincronizar a sinfonia de Dionísio,

 

pois elas perderam o riso da harmonia

e se tornaram almas mortas de agonias.

 

A cidade, poeta, hoje é “apenas”

alma que pena suas dores e seus horrores,

 

dissimulada de Athenas sem cantores,

sem poetas, sem poesia,

 

ilhada no besteirol da vaidade comum

pensada, apenas, na vermelha lama do consumo.

 

É assim, hoje, a tua ilha: cercada de grilhões

que aprisionam Prometeus nas rochas da ignomínia,

 

que favorecem os tufões da incompetência

que se sentam à mesa dos poderosos

 

e diante de um lauto manjar

exigem dos poetas a continência,

 

exigem toda reverência

para lhes legitimar toda incompetência.

 

Poeta... Perdemos os telhados.

Todos os telhados perdemos.

 

Perdemos as sacadas.

Todas as sacadas perdemos.

 

Perdemos nossas ruas.

Todas as ruas perdemos.

 

Perdemos nossas fontes.

Todas as fontes perdemos.

 

Não temos telhados,

nem as sacadas temos.

 

Não temos ruas,

nem as fontes temos.

 

Estamos sós... Ilhados estamos.

Perdidos – todos – somos, poeta.

THEMIS

Themis

 

Por João Batista do Lago

 

Themis, terra minha que me fez errante

Bendita seja!

Ó tu que me castigaste a vida

Que não me quisestes ter por Zeus

Olhai o pranto que derramo

Nos prados de almas tantas

Infecundas almas de desamores

Que se tornaram lentamente

Sepulcro de minhas dores

E lá do fundo da ossatura do meu viver

Ainda resiste um amor infinito

Desde a adolescência do nosso tempo

Marcado como ferro em brasa

Ferida jamais fechada

Porta aberta para tua entrada

Em qualquer momento da eternidade

- qualquer eternidade –

Que porventura um dia me pretendas dar

 

AMOR ANIMAL

AMOR ANIMAL

 

Por João Batista do Lago

 

Como um animal domesticado

Aprendi a seguir os teus passos

Na ânsia de encontrar os abraços

Vindos do teu corpo sem pecado

 

Ah, os doces e ternos afagos...

Mimos, carinhos e ternos beijos

Fizeram de mim o teu escravo

E pregaram-me na cruz dos desejos

 

Agora te sou eternamente grato

Por esse louco amor apaixonado

Mesmo que dele apenas sobra tenha

 

Ainda assim apaixonado sou

Pela volúpia contumaz do teu corpo

Que me faz capaz de tanto amor

 

Curitiba- Paraná/2007

DENÚNCIA

NÃO MATARAM UM CIDADÃO.

NÃO MATARAM UM HOMEM.