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13 November OBSERVANTEOBSERVANTE
© DE João Batista do Lago
Rasgam-se-me as cores do Tempo Dum Tempo Vermelho Que se lá vai em direção à Violeta...
Em mim – espaço eterno! – sucede Num ar de luzes do sol Acompanhado de suas filhas A maçã que flutua Como um arco-íris que Surge dum céu metade escuro e Envolto por nuvens de chuva Ofertada por Athena
Lá vai meu Tempo em Direção à Violeta que se Esconde no meu mais profundo interior, mas Que explode todo o Vermelho exterior que rega Minhas veias em direção ao meu mar profundo: Sou, agora, todas as cores Guardadas no vaso atemporal da minha eternidade
25 March CÂNTICOS VISCERAIS (Livro)
Cânticos Viscerais é o terceiro livro de João Batista do Lago que, acertadamente, em suas próprias palavras, o define como seu “ponto ideal”. Não se trata de mais um livro de poesias; são poesias de um novo espírito poético, poesias que se esteiam na polêmica da razão... ou das razões. São arguições profundas que se ultrapassam num devir poético.
Simpatizante das concepções bachelardianas, João Batista sente ser necessário adentrar os caminhos de uma poética que recorde à razão sua função agressiva, turbulenta, em que se multiplicam as “ocasiões de pensar”. Esta razão necessariamente há de ser polêmica, há de provocar, de desancorar do local onde naufragou – este, já agora, inútil destroço.
Há uma tensão dinâmica, fluida, e não uma cisão entre a poética de João e seu pensar racional sobre o real. Para além de uma inserção advém uma complementariedade; há um poeta no racional extraindo insights, compreensões retiradas a fórceps, dores “viscerais” por trás da persona alegre...
Trata-se aqui de uma construção que desfragmenta, fractaliza e se recria a partir de blocos de uma linguagem assimétrica: a obra? Estética harmoniosa, cromática, ferina de palavras-sílex, suaves, e fertilizadas flores beijadas por beija-flores...
A crise inserta na pós-modernidade (leia-se aqui a ruptura da legitimidade das meta-narrativas) gerou um mal-estar na confiabilidade, na credibilidade dos grandes discursos. João não consegue esconder esse mal-estar e, para além disso revela-o pela – metaforicamente – face mareada, pré-emética, deixando-se ver sinal e sintoma.
A dor em João é-lhe tão “visceral”, que por vezes beira a impotência de um moribundo. Quais as dores que o exasperam? São as dores do (des)conhecimento e mesmo do conhecimento, as dores da inconformação frente às ideologias que espalham subserviência e misérias, as dores que se mimetizam em prazeres, que se escondem por trás das máscaras assépticas, as dores da inocência perdida, do abuso criminoso, da inocência de si; as dores de abortos covardes das utopias felizes; de caminhar solitário num mar de dores anestesiadas.
Com uma pitada de Bachelard, diria que João vê o estrume, mas também vê a flor! E de ambos aspira-lhes a essência do perfume... mesmo que fatal. Aspira convicto, consciente do mal que pode evolar da flor ou do bem que pode estar mimetizado no estrume. Porque o João se debruça sobre ambos – independente, objetivo e total no seu conhecer, na sua contemplação. E, por isso, apreende no instante... e retifica a apreensão – dolorido – no próximo apreender...
A apreensão causa dor. A noção de dor em João, como já foi dito, é dilacerante: do fundo de suas entranhas, no estranho ventre algo chegou a termo! O concepto, pronto para vir à luz, tem de rasgar-lhe por dentro e não é possível adiar... Há dor no concepto e no parturiente. O pós-parto exige recuperação; o recém-nato, adaptação. É João a sentir a ferida de si a doer, a dor dos feridos todos, a dor de ser e de existir consciente, a dor da inconsciência no outro de que lhe crescem feridas...
Por que o “visceral”? Porque a dura palavra coaduna-se com o real; é-lhe velha irmã, conhecida, companheira do dia a dia. Porque a estética virtuosa já carece de sentido, já não mais perturba a desvirtuose em que estamos imersos; já não é mais capaz de perfumar o que se apresenta pútrido na ausência de virtude das cidades, dos países, dos escravos felizes de senhores vis.
João, voyeur de si, artífice de metáforas como pendular meta-fora de si, delator nobre do injusto/covarde/leviatânico grande outro... Seu escancaramento de si e do real, apesar do que lhe causa, tão bem expresso nas suas viscerais palavras, não lhe é obstáculo, não lhe convida a participar do banquete dos acomodados. São, antes, “pontos vélicos” bergsonianos a lhe impulsionar a busca.
João Batista do Lago evidencia nas contradições, nas antíteses tão bem insertas, a dualidade mal encoberta que se revela à análise crítica – do olho que quer ver. Assim, enriquece seus gritos-denúncia contra uma exploração de ideologias e dogmas, deixando a descoberto o amontoado de inúteis discursos desumanizados, desarraigados...
Há no poeta uma inquietação tanto com a tentativa de reencontro de sua dimensão universal, quanto com a miserável condição humana que se esconde nos becos das cidades, ou que escoa a céu aberto, onde caminham outros homens-cidades humanos poluídos de exploração homo homini lupus na alcatéia de um “deus mercado”...
Nosso poeta, de tímpanos feridos, mostra o grito calado, ouvido dentro de si que é abafado pelo ensurdecedor ruído uníssono de caducos filosofares, que deixa proscritos os quereres, que torna impossível os pensares...
Lembra-me ele um rebelde aluno em casarões-escola mofados a distrair a atenção para o principal – que não é ensinado; bêbado feliz que faz escárnio da abstinência alheia: ora sem bandeira de si, ora fractal bandeira de todas as cores... Tal qual o pintor que se utiliza de cores na criação de suas obras, João Batista vai customizando, ao buscar novos matizes, dentre os espectros visíveis do real; vai decompondo fractais sintonizado na frequência espectral de tons monocromáticos; vai tingindo os dégradé de braços, pernas e pés explorados com cores carregadas – irônicas, sarcásticas linhas poéticas viscerais...
Essa visceralização ocorre no instante instintual, onde o experienciar converte-se em impressão-explosão poética. Há um grito em João Batista do Lago que o ensurdece e berra para a Ágora sonolenta; um grito que quer que seja pública, não rês, bovina resignação de homens tangidos por uma sorte não pressentida. Falo de um João que se insurge primeiro dentro de si e, aos poucos, transborda para o outro que também carrega em si. Assim como quer a este outro desperto, desperta atônito de seu próprio despertar.
Na sua orfandade de origens é um homem distanciado de si, na miserabilidade de se contemplar em uma vida que é um reflexo de sua condição atual, numa época desarraigada, inconsciente, repetidora (de iguais!).
Ao carregar nos ombros seu próprio sofrimento de ser dor e de ver as dores do mundo, imola-se em cada verso que destrincha com os talheres baratos e descartáveis que lhe são oferecidos tão “gentilmente”. Cada palavra que liberta, cada frase que solta das brancas e suadas páginas é um pedido sempre último de que se nidifique fertilizado em úteros-mente que gestarão versos vivos. E, pelo amor de Deus, ou dos deuses, que não se aborte a Poesia!
É visceral a dor da certeza de que é humana a mão (de carne e ossos que irão apodrecer); que, à semelhança do conto da árvore a reconhecer ser de madeira o cabo do machado que lhe abaterá, também são humanas as mãos que distribuem a fome, os sermões que excomungam, que expõem mãos diferentes em circos de horrores modernos... E por isso, a fumaça dos turíbulos já não sobe aos céus: seus ductus e ictus apenas conduzem às profundezas torpes do ser (des)humano. Há um lobo no altar da ovelha; há filhotes de lobos a beijar ovelhas...
“Poeta maldito”, herege a blasfemar contra seu alienofágico “deus mercado”... Bendito rebelde que incita, concita seus pares, excita-se com o sonho de se acabarem os matadouros onde se prepara o banquete de duras carnes humanas. É dilacerante a dor que calcina os ossos, a dor de se sentir brasa viva de si, a dor nos ouvidos onde ecoa o tropel dos cascos a espezinhar as dignidades, onde se escuta centauros chicoteando os direitos...
O sujeito da poética de João é um João cognoscente, ávido e árido de si; é um João que se oferece sacrificialmente, que faz libações ao sensório cru – e nu – de seu próprio experienciar... irrepetível conhecimento. João oferece o que não é de se oferecer; angustia-se por oferecer o que, neste carecer do ofertar, não será compreendido, será mesmo até inconveniente: será um choque visceral... algo, por certo, a ser evitado...
A poesia lá está, às vezes, pregada no âmago da cruz-poeta; quando ele a desprende, há a sensação de um chute “na boca do estômago”, há uma dor visceral, que parte das entranhas da cruz e perpassa – dolorida e pulsante – pelas veias do real. E o que é este real? É o instante no homem que jaz liberto na cruz... Do alto de seu madeiro, não se queda - alheio e surdo – aos choros: vê tanto a funcionalidade deste como o despropósito de chorar. Do alto de sua cruz implora a morte: que todos iguala, que revela e retira as algemas da verdade, tão insistentemente escondida no viver; a morte que é símbolo do fim da procrastinação da procura, da morte dos regimes, sistemas, filosofias, dogmas, ideologias, procuras de João... Jaz na cruz um João, pássaro na mira do caçador de si...
É o nosso poeta um buscador de si. Na busca de seu perfil esbarra nos obstáculos – seus perfis escondidos. É, ao mesmo tempo, sujeito e objeto do conhecimento de si e por isso, inevitáveis são o conflito e a dor oriundos do próprio ato de conhecer. No enfrentamento de seus obstáculos, de certa forma, sentimento de caos, supera-se avançando para outro caos. Ao mesmo tempo retifica seus perfis, alarga sua via crucis e segue na “intensidade de presença” de um novo João.
Sua poética, qual bisturi a lhe cortar o corpus, desfolha-lhe as camadas, textos de si mesmo, expondo-lhe à luz do dia os nervos-análise que se permitiu dissecar. A cortar-lhe: um insensível bisturi; a ser cortado: já um meta-corpus. Na alcova fértil de seu “quarto”, seus frios/quentes suores são rimas, por vezes ásperas; ei-las avesso do cetim, doloridos chutes que a esperança lhe dá do âmago de seu ventre grávido. A poesia aqui é um pensamento que se aventura, uma aventura que se pensou. Dinâmica e intuída, insights de si, direciona-se redirecionando, compreende-se além de si. Em sua alcova, João biparte-se, reformula seus signos: há significado e significados, há mais nulos significantes... João decifra-se e devora-se...
A vertente “noturna” de João revela-se na poesia que, ora o faz precipitar-se nos abismos, ora o leva a despencar, ele mesmo, impelido e seduzido pelo abismo de sua (in)compreensão. O lado “noturno” ri-se do lado “diurno” de João e o provoca no leito de seu “quarto”... E as palavras, situações, estupefações, ao passarem pelo crivo de um João racional, amalgamam-se no instante – amante – capturado e traduzem-se no verso em gozo...
Caminhante – dos irmãos, o caçula de Dante -, o poeta vai tropeçando sobre si, por entre as ruínas de suas construções mentais, coletando as cinzas-amostras, material de estudo em seu laboratório de cientista-poeta.
Já de outras vezes, João navega turbulento, singrando os mares cheios dos monstros dos erros e ilusões. Açoitam-lhe os ventos da linguagem que, racionalmente tenta usar, fustigam-lhe as tempestades de incoerência... mas, continua a proteger a bússola sonhando com o farol (gedankens) que, intui, está a se ocultar por trás do vagalhão de suas ancestrais paixões... Por vezes a vontade louca de se lançar ao mar, de se oferecer ao altar de Netuno como um lobo a se redimir perante a ovelha cobiçada outrora: seu intuito é o de libertar rebanhos.
A tentativa de descontrução na palavra da dor embutida nas guerras, nas misérias cotidianas coloca na face do poeta um olhar que irrompe da noite, ao modo do Sol, e escancara à luz (razão) do dia as mazelas, a podridão mal encoberta, o fétido cheiro que já não mais incomoda, pois os olfatos já se acostumaram e as máscaras também fedem...
Uma preocupação assola a alma: será possível ser a si mesmo se há moldes em todo lugar? Na família, na escola, na igreja, no trabalho, na sociedade? Será que tudo já foi dito, será possível a desalienação, libertar-se do jugo ideologizante e ideologizado?
E surge, por vezes, o medo de abrir “as gavetas do Eu”, o medo de se ver desnudo, sem máscaras frente a si mesmo; o medo do confronto consigo mesmo, das fragilidades visceralmente expostas... É um medo que queima e enregela qual arrepio de alma...
Os olhos – janelas d’alma – refletem tanto a visão de si, interno-olhar, quanto releituras, (re)visões do que se apresenta ao olhar. Se leitura hoje, re-leitura amanhã e, para além do amanhã, leituras outras existirão... Quais olhares surgirão? Existirão olhares? Será pura e vã inquietação?... Existem as leituras dos vencedores; as esquecidas estórias dos vencidos; há espaços reais aos seus tempos; há verdades forjadas, mentiras transmutadas em verdade única; há vidas ceifadas cheias de verdades amordaçadas... De onde o direito de espalhar o ódio que contamina os inocentes, os civis que ainda não estão na guerra?
Por ser um buscador, o poeta recorda-se do realismo ingênuo, subjetivo e egocêntrico e passa lépido por um empirismo “claro”, qualitativo e quantitativo de si. Do racionalismo tradicional extrai-se como noção de um João relativo inserto num paradigma racional e, refeito de si, pulando as pedras limosas da razão, ainda meio zonzo já escorrega em seus referenciais e se estatela na grande pedra... surracionalmente feliz. Já agora é um João simultâneo a se olhar; não mais absoluto, nem relativo. Compõe-se (ou fragmenta-se?) a partir do dual na dimensão quadridimensional do espaço-tempo.
Seduz-lhe a pedra, por ora. E maravilha-se, angustia-se, devaneia, filosofa oniricamente na poesia! Sente-se arquetípico, pressente um meta-João a ferir-lhe as entranhas feitas de todos os “Joões”. A taça não transbordou. Saboreia-se pressentindo a dor da cicuta que ingere e, digere - antropofágico – cada um de seus pedaços, enquanto o “dia” não vem. João sonha desperto (devaneia) enquanto é tecida a “noite” em que cabem seus versos, mas, serve-se destes para antever o pesadelo do diurno sonhar... A cada nova poesia: a experiência do instante, do tapa do real na ilusão, do novo e do velho, do profundo que diz Não ao Sim da razão. E o poeta se alarga, se retifica dolorido, “visceral” eternum retorno e perda de si, lato e strictu sensu João... Ah, João, já a pensar em outras pedras ou está a pedra a golpear por Amor?
São feitas nesta poética várias alusões aos quatro elementos: água, ar, fogo, terra. Podem ser escritos tratados (e já foram) sobre a simbologia oculta nesses elementos alquímicos, elementos de criação, elementos poéticos. Mas, num recorte, que nos interessa aqui, cabe atentar para a decomposição que o poeta faz criando desses símbolos metáforas de metáforas.
Assim, na busca do ouro alquímico de seu próprio ser e de sua consciência no real, o fogo tanto pode servir-se de seu papel de nilificador (uma espécie de redução a cinzas), quanto de purificador (uma espécie de lapidação das imperfeições). Poderá ser símbolo de paixão, do íntimo, do instintual que queima, de corporificação do desejo que consome. Há, porém, um sentido maior, não excludente dos demais, o de transcendência: o fogo, ao consumir matéria (e, aqui também, espírito) dialetiza o sujeito e o objeto João, purifica-o e lapida-o em suas arestas antagônicas... E que dor inevitável, que luz que cega!
Já da Água nos vem à mente a noção de fluidez, de uma poesia que é afluente (deságua e compõe rios), que João faz fluidicamente, como fecundante rio a fertilizar margens. Mas na água se lavam também os pecados originais, nela nasce o novo homem... Ecce homo...; dela bebe-se iniciaticamente a “Verdade” que sustenta. Águas há assassinas, violentas, profundas nas quais submergem homens que convivem com as águas primaveris e claras em que se banham despreocupados os jovens corpus amantes. Já aqui, em meio às águas, João até pensa irônico no peixe-poeta, crístico símbolo a se deixar pescar, pois que peixes e água são partes de um todo só...
Do Ar, capta-lhe, em seu movimento ascensional, a dupla face da queda e do vôo. Sobe assim, pleno em devoção, buscando o elevado Olimpo no qual fará uma oblação de si. Há vestígios arqueológicos de deuses no Olimpo? E como se livrar das impurezas que o alçaram lá?
Já agora é a Terra, pois, a lhe avisar de suas raízes, do repouso e do ventre que lhe germina e sepulta. É a terra a lhe fazer brotar uma nostalgia do vivido e do que poderia ser... Saudade menina de um menino João... Um bem querer de Pátria amada, de uma amada distante no tempo, de chão-natal amado, inocente, pandoravelmente a espiar... E assim as antíteses diurno/noturno (racional/onírico) amam-se despudoradas e inocentes no universo alquímico de João...
Penso (será que realmente existo no meu pensar?) agora (serei mais uma na Ágora sonolenta?), por fim, na impressão que me fica após a leitura deste livro. Pareceu-me que o poeta envia aos seus leitores a seguinte mensagem: - “É preciso re-aprender a capacidade de se espantar; é urgente adentrar, pela iniciação poética, o umbral do conhecimento; é imperioso o despertar consciente e atuante diante do que é dado, do que é imposto, levantar o véu da essência que a aparência encobre. É necessário também sentir que há sangue tanto nas próprias veias quanto na história da humanização; é urgente também re-descobrir-se numa re-inserção. Porque é um desrespeito valer-se da poesia de uma forma vil... É proibido alienar-se a poesia!”
Obrigada pelos mergulhos no abismo, por dar voz aos gritos tão nossos, pela denúncia (porém atente: Si no pacem para bellum... se queres a Paz, prepara-te para a guerra!), pelo fogo, pela água... e pelo ar e pela terra... Obrigada pelo ocaso-interregno; pelas primaveras que estão contidas nas geleiras... Obrigada, mais que simplesmente, visceralmente... Lembrei-me de um trecho de um imortal, nosso poeta Carlos Drummond de Andrade, de sua magnífica poesia intitulada Procura da poesia; dizia ele: - “Chega mais perto e contempla as palavras./ Cada uma/ tem mil faces secretas sob a face neutra/ e te pergunta, sem interesse pela resposta,/ pobre ou terrível que lhe deres:/ Trouxeste a chave?” Creio que João Batista do Lago a tem...
Alpha Leninha (http://alfaleninha.spaces.live.com) 19 March OUTONO DE PRIMAVERAS OUTONO DE PRIMAVERAS © DE João Batista do Lago Precipita-se-me a transição Meu corpo – casas de alma e espírito – Acomoda-se no vazio do espaço Para receber todo ouro Que reluz das tuas cores És uma outra primavera Carregada de outonais folhas Que se transformam em flores! É deste movimento eterno Que me seduz desde o céu até o inferno Que aprendo que a morte é o nascimento Que a vida é como nuven de outono Dura o tempo da dança dum balé magistral É como o brilhar do relâmpago no éter Rasgando trevas infinitais de angústias Desfolhando no espelho das águas Luas que refletem nas relvas Todas as faces do novo ente... Sucedes meu calor de dores infernais Antecedes meus céus de neves... Vês! És assim a transição de mim Dum morrer-se para um nascer-se Num movimento fugaz dum tempo eterno Que não se concluirá num qualquer céu Ou num qualquer inferno... A existência é muito mais que a morte Muito mais que vida ela é E desde o céu até o inferno Migra de estação para estação Plantando flores de ouro Florindo de pétalas amarelas todos os caminhos Fazendo renascer de cada lavoura Todos os outonos de primaveras __________ Poema dedicado a Vera Lúcia Carmona (Portugal) 18 March POEMA PARA RUANDA (ou Holocausto Posmoderno)POEMA PARA RUANDA* (ou Holocausto Posmoderno)
© DE João Batista do Lago
“Nós nos veremos novamente no céu” Zunia nos ouvidos incrédulos da colina A voz troante dum coro vibrante Cantando vitimas dum genocídio Esquecido pelos senhores donos do mundo Diante dum memorial de vítimas
Do alto da colina homens e mulheres de pés descalços – indiferentes à dor e ao sofrimento e atônitos – Assistem ao desfilar de máquinas reluzentes Parindo deuses negros como ébanos Todos filhos da África-mãe dolente Agora quase sem forças para salvar os filhos seus
- Não compreendestes, ó filhos meus, filhos das minhas savanas sagradas: miserável e condenada será por toda eternidade a maldita nação que desgraça e mata sem dó nem piedade todos os irmãos seus pensando fazer justiça aos olhos de Deus
A chama que arde sobre o memorial dos mortos Clama pela Paz diante de tutsis e hutus de pés descalços; Chora pelo afeto e pelo carinho e pela solidariedade nunca alcançados Grita pela liberdade capaz de ungir almas e espíritos e corpos Ora pelo raiar dum sol de esperança mútua Canta e dança pela juventude duma esperança vírtua
Amendrontados os olhares do alto da colina Todos de pés descalços – tutsis e hutus – Pensam numa só ladainha de esperança: “O genocídio foi algo brutal... criminoso e nojento! 100 dias foram o bastante nessa luta fatal para matar 800 mil diante da passividade internacional”
Não! Nós NÃO nos veremos novamente no céu! - suplicam os corações do alto da colina – Nossa sina é a dignidade e a virtude entre irmãos Que restará preservada nesse memorial da imolação 14 March SONETO DA ESTAÇÃOSONETO DA ESTAÇÃO
© DE João Batista do Lago
O verão está-se esfumando Chegando ao fim... Ao ocaso Regra da Natureza-mãe – não por acaso! Implacável vai determinando
O fim de mais um ciclo vital Mostrando a toda gente a recriação Insistindo no cântico da renovação Revelando a Natureza como animal
A morte é um fenômeno natural Dela nada escapa; por isso é genial Seu encanto fatal é a única certeza
Nada há que resista a tanta beleza A morte mata a vida da natureza... Mas quando si morre renasce a beleza 1 March SHABBATHSHABBATH
© DE João Batista do Lago
Porque hoje é sábado Resolvi fazer uma limpeza e Promover a ordem no Caos do meu quarto – minha concha! –
É lá o meu templo sagrado A sacristia das minhas angústias Residência dos meus devaneios É lá o meu canto de intimidades Onde moram meus armários Cofres das minhas veleidades
E assim procedi Pouco a pouco fui fazendo a faxina E lentamente o quarto foi-me de novo sorrindo
Deixei que o Sol entrasse pela janela Que banhasse com raios de luz Toda imensidão da concha que me habita Que me segreda como pérola Mas que me oferta ao mundo Como hóstia Como oblação Aos deuses que me crucificam Após o Evangelho das Sagradas escrituras dos mercados
Pouco a pouco o quarto foi se transformando Pendurando em cada cruz minhas identidades Então reféns das liberdades do movimento dos meus pensamentos Antes libertinos e soltos e puros...
Foi então que ela apareceu Estava ali parada à porta... Inerte como o Juízo Final
Olhava-me com fixação nitrogenada Fazendo-me crer que eu era sua obra prima Na intuição do instante da sua criação mais-que-perfeita Fazendo com que meu corpo assimilasse sua angústia
Ali estava ela parada... Estagnada mesmo Sem uma palavra Apenas com o olhar fixo duma pedinte Que de tanta fome De tanta sede De tanta dor De tanta angústia Não mais tinha forças sequer para mendigar
Ali estava ela inerte como o Juízo Final
Resolvi então dela aproximar-me Foi aí que percebi que ela estava perneta E como quem sente vergonha de não ser completo Baixou a cabeça e chorou... Chorou o choro mais profundo que me correu entre as veias Chorou o choro do prenúncio da morte Chorou o cântico das súplicas Duma súplica pela vida Como quem sabia que sua etapa ainda não podia findar
Ajoelhei-me diante de tanta resignação Diante de tanta e quanta submissão paciente aos sofrimentos da vida...
Foi aí que ela me falou sem dizer uma palavra: “toma-me em tuas mãos e me levas ao alpendre da tua morada; lá serei salva pelas flores e rosas e plantas; lá serei parte da natureza; e mesmo que morra e mesmo que desapareça serei entre flores e rosas e plantas a conjunção perfeita de toda sabedoria”
Tomei-a às mãos e a conduzi até o alpendre Ela está salva Ela está viva
Hoje posso dizer: Do caos do meu quarto dei vida a uma Esperança 28 February EUSIMBÓLICOEU SIMBÓLICO
© DE João Batista do Lago
Resta-me da ossatura a Carne de todos os símbolos Perambulando entre os Apriscos da floresta Pictórica de muitas moradas São meus alimentos os Instintos selvagens dos Instantes angustiados... Sou fera rara! Tão rara Quanto temporais de sonhos A vida – minha catacumba! – Encorpa minha alma de espíritos Hora puros... Outras impuras Sob o açoite de vergastas Que me movem em direção aos nadas Selo com meus símbolos a Diáspora de todos os povos Encarcerados nos andaimes dos Caminhos para Babel: No final da jornada não há céus Todos os demônios unem-se Numa desesperada oração onírica E entoam hinos sufragantes E choram choros lamuriantes – gritos das minhas alcatéias! – Oh! Sensações de ondas em espirais Que me fazem vibrar no umbral de Loucuras santas – tantas e quantas! – Perdoa o corpo que te abriga as dores Salva-o dos chicotes das representações E me revelas o sonho real Gerado nas profundezas da carne imaterial É lá onde desejo ser toda Possibilidade dos Sonhos mais sublimes e perfeitos e Matizar minhas cores na ossatura do eterno __________ Leia mais textos deste autor aqui: http://joaopoetadobrasil.wordpress.com
22 February JOSÉ NASCIMENTO DE MORAES FILHO, MEU MESTRE E ÍCONE, MORRE AOS 86 ANOS EM SÃO LUIS - MARANHÃOAcabo de receber este e-mail dando-me conta do falecimento de uma das pessoas que me foram mais caras na vida, o Professor José Nacimento de Moraes Filho...
"a luz projetou-me no infinito e cosmovisionou-me até a origem das origens! e me vi gerar!... e me vi nascer!.. - antes dos universos! Livre!...Livre!..."
“... eu não nasci para mim! - nasci para a humanidade!... eu não nasci para aqui: - nasci para o universo!"
Descanse em Paz poeta! Só o fato de ressuscitar a primeira romancista negra do Brasil, foi uma de suas maiores missões neste plano! Obrigado J. Batista pela homenagem em vida que prestastes ao poeta com a belíssima "METONÍMIA"!
Atenciosamente, J. N. M. Neto.
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© De João Batista do Lago[1]
A saudade é um sentimento que soi ocorre à língua portuguesa tentar expressá-la concretamente, realmente. Nenhum outro idioma consegue, como o português, aproximar-se desse fenômeno que invade a alma humana e que, por mais que nos expressemos, seja por que forma ou género for, sempre faltará “algo” que jamais conseguirá ser dito a respeito desse “sujeito” que é gerado abstrativamente no mais íntimo de cada um. A saudade é um substantivo feminino abstrato. Isso, de per se, revela o grau das dificuldades que temos em “tra-duzir”, ou seja, transportar o sentimento para a palavra (fala = língua) falada, escrita ou ideografada, exatamente porque esse sentimento é sempre uma abstração ou é, sempre fruto do abstrato existencial do ser. Agora, quem dentre os mortais que falam o idioma português mais se aproxima de expressar, concretamente, esse fenômeno? Ouso responder: - O Artista. Sim, os artistas são em-si, de-si, para-si e para além-de-si o ser e o tempo, que há um só tempo sugerem a cri-ação da transferência do sentimento para o campo real, isto é, para realidade temporal, pois são os senhores dos sentimentos e das sensações. Agora, quem dentre os mortais artistas que falam o idioma protuguês são capazes de, ainda mais, se aproximarem da concreção desse sentimento, dessa sensação: Ouso responder: - Os Poetas. Estes pintam quadros imaginários de todos os tamanhos, de todas as cores, de todos os graus, de todas as dimensões, de todas as gradações, com todos os amores ou com todos os horrores possíveis e impossíveis à capacidade de observação do indivíduo. E mais: em todo Ser; em todo Espaço.
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Este micro comentário introdutório me foi exigido a partir de uma tipologia de auto-analítica do conhecimento para poder falar sobre “uma” (enfatizo uma porque há muitas outras de igual beleza estético-conteudística) poesia (poesia e não tão-somente Soneto) de um poeta que o conheci recentemente: Manoel de Andrade, que estreou recentemente um livro de poesias editado pela editora Escritura, e que já aparece na lista dos 100 mais vendidos.
Esta é a poesia:
VELEIRO
Mar afora, mar adentro lá vai singrando um veleiro quem dera ser passageiro pra correr nas mãos do vento.
Mar adentro, mar afora como navega ligeiro cruzando este golfo inteiro nas cores vivas da aurora.
Onde vais assim tão cedo rumo à Ilha do Arvoredo levando meu coração…?
Vou navegando contigo meus olhos te seguem, amigo, perdidos na imensidão. __________ Baia de Zimbros, janeiro de 2005. Do livro CANTARES, editado pela Escritura.
À primeira vista, ou seja, à primeira leitura somos tomados por um sentimento de jovialidade. Explico: se não lemos esta poesia com os olhos de ver e com a consciência do entendimento, com um certo grau de conhecimento ontológico, podemos tê-la e vê-la como uma poesia principiante, e de principiante. Ledo engano! E quão maravilhoso engano percebe-se quando a lemos uma, duas, três… vezes. “Veleiro” é dessas poesias que nos chegam ao íntimo sem a marca do tempo cronológico, sem o emblema de um espaço pré-definido ou definido, além do Tempo e do Espaço que são-de-si essentes. “Veleiro” é atemporal! E aqui reside, desde sempre, o “segredo” desta poesia: é um Universal! E que Universal é este?: a Alma! E que alma é esta?: a Saudade! Cada palavra-contexto desta poesia é produzida de saudade com a alma da saudade: passageiro singrando um mar externo e externo de sentimentos e sensações. Ensina-nos o “velho” Hegel que a Alma sensitiva tem três estágios: (1) a alma senciente em sua IMEDIATIDADE – (quem dera ser passageiro) -, ou vida de sentimento, uma vaga consciência da condição corpórea, associada principalmente à vida intra-uterina; (2) o sentimento de si – (cruzando este golfo inteiro) -, uma vaga consciência de si como indivíduo em contraste com, mas não absorvido em, seus sentimentos particulares: egoísmo, por exemplo, o que é diferente de autoconsciência reflexiva; (3) o hábito, no qual, por constante repetição, sensações e sentimentos tornam-se familiares e, portanto, menos salientes – (levando meu coração… meus olhos te seguem, amigo). Ter hábito é distanciar-se, melhor dizendo, libertar-se dos sentimentos e das sensações. Ou seja: “Veleiro” é o sentimento e a sensação interiorizados e externalizados, mas desprendidos do Eu, o que em essência gera a “alma real”, noutras palavras: a consciência do si, de-si e no em-si. Enfim, “Veleiro”, aos meus olhos, é um eterno vir a ser num “mar adentro/ mar afora” do “sujeito abstrato” que pretende ser-si “sujeito real” num eterno (= temporalidade) vir-a-ser a idéia essente, ou seja, o sujeito real capaz de tran(s)-duzir-si em consciência plena. “lá vai sangrando um veleiro” indica, pois, aos meus olhos, um corpo de pensamentos que impulsionam à Verdade; o “golfo” é a porta de passagem para o conhecimento dessa verdade, ou seja: “rumo à Ilha do Arvoredo/ levando meu coração…”; “mar afora, mar adentro”, a teimosia, ou seja, as dúvidas dessa travessia para o conhecimento. É assim, pois, que vejo esta poesia de Manoel de Andrade. Contudo, sugiro que adquiram o livro CANTARES, onde vocês, caros leitores, vão-se deliciar com a poética desse autor que me orgulha havê-lo conhecido.
Hasta la vista!!! __________
[1] João Batista do Lago é jornalista, poeta, escritor, ensaísta e pesquisador. É maranhense, mas reside em Curitiba há anos. Viajando no "Veleiro" de Manoel de AndradeVIAJANDO NO VELEIRO DE MANOEL DE ANDRADE
© De João Batista do Lago[1]
A saudade é um sentimento que soi ocorre à língua portuguesa tentar expressá-la concretamente, realmente. Nenhum outro idioma consegue, como o português, aproximar-se desse fenômeno que invade a alma humana e que, por mais que nos expressemos, seja por que forma ou género for, sempre faltará “algo” que jamais conseguirá ser dito a respeito desse “sujeito” que é gerado abstrativamente no mais íntimo de cada um. A saudade é um substantivo feminino abstrato. Isso, de per se, revela o grau das dificuldades que temos em “tra-duzir”, ou seja, transportar o sentimento para a palavra (fala = língua) falada, escrita ou ideografada, exatamente porque esse sentimento é sempre uma abstração ou é, sempre fruto do abstrato existencial do ser. Agora, quem dentre os mortais que falam o idioma português mais se aproxima de expressar, concretamente, esse fenômeno? Ouso responder: - O Artista. Sim, os artistas são em-si, de-si, para-si e para além-de-si o ser e o tempo, que há um só tempo sugerem a cri-ação da transferência do sentimento para o campo real, isto é, para realidade temporal, pois são os senhores dos sentimentos e das sensações. Agora, quem dentre os mortais artistas que falam o idioma protuguês são capazes de, ainda mais, se aproximarem da concreção desse sentimento, dessa sensação: Ouso responder: - Os Poetas. Estes pintam quadros imaginários de todos os tamanhos, de todas as cores, de todos os graus, de todas as dimensões, de todas as gradações, com todos os amores ou com todos os horrores possíveis e impossíveis à capacidade de observação do indivíduo. E mais: em todo Ser; em todo Espaço.
* * * * *
Este micro comentário introdutório me foi exigido a partir de uma tipologia de auto-analítica do conhecimento para poder falar sobre “uma” (enfatizo uma porque há muitas outras de igual beleza estético-conteudística) poesia (poesia e não tão-somente Soneto) de um poeta que o conheci recentemente: Manoel de Andrade, que estreou recentemente um livro de poesias editado pela editora Escritura, e que já aparece na lista dos 100 mais vendidos.
Esta é a poesia:
VELEIRO
Mar afora, mar adentro lá vai singrando um veleiro quem dera ser passageiro pra correr nas mãos do vento.
Mar adentro, mar afora como navega ligeiro cruzando este golfo inteiro nas cores vivas da aurora.
Onde vais assim tão cedo rumo à Ilha do Arvoredo levando meu coração…?
Vou navegando contigo meus olhos te seguem, amigo, perdidos na imensidão. __________ Baia de Zimbros, janeiro de 2005. Do livro CANTARES, editado pela Escritura.
À primeira vista, ou seja, à primeira leitura somos tomados por um sentimento de jovialidade. Explico: se não lemos esta poesia com os olhos de ver e com a consciência do entendimento, com um certo grau de conhecimento ontológico, podemos tê-la e vê-la como uma poesia principiante, e de principiante. Ledo engano! E quão maravilhoso engano percebe-se quando a lemos uma, duas, três… vezes. “Veleiro” é dessas poesias que nos chegam ao íntimo sem a marca do tempo cronológico, sem o emblema de um espaço pré-definido ou definido, além do Tempo e do Espaço que são-de-si essentes. “Veleiro” é atemporal! E aqui reside, desde sempre, o “segredo” desta poesia: é um Universal! E que Universal é este?: a Alma! E que alma é esta?: a Saudade! Cada palavra-contexto desta poesia é produzida de saudade com a alma da saudade: passageiro singrando um mar externo e externo de sentimentos e sensações. Ensina-nos o “velho” Hegel que a Alma sensitiva tem três estágios: (1) a alma senciente em sua IMEDIATIDADE – (quem dera ser passageiro) -, ou vida de sentimento, uma vaga consciência da condição corpórea, associada principalmente à vida intra-uterina; (2) o sentimento de si – (cruzando este golfo inteiro) -, uma vaga consciência de si como indivíduo em contraste com, mas não absorvido em, seus sentimentos particulares: egoísmo, por exemplo, o que é diferente de autoconsciência reflexiva; (3) o hábito, no qual, por constante repetição, sensações e sentimentos tornam-se familiares e, portanto, menos salientes – (levando meu coração… meus olhos te seguem, amigo). Ter hábito é distanciar-se, melhor dizendo, libertar-se dos sentimentos e das sensações. Ou seja: “Veleiro” é o sentimento e a sensação interiorizados e externalizados, mas desprendidos do Eu, o que em essência gera a “alma real”, noutras palavras: a consciência do si, de-si e no em-si. Enfim, “Veleiro”, aos meus olhos, é um eterno vir a ser num “mar adentro/ mar afora” do “sujeito abstrato” que pretende ser-si “sujeito real” num eterno (= temporalidade) vir-a-ser a idéia essente, ou seja, o sujeito real capaz de tran(s)-duzir-si em consciência plena. “lá vai sangrando um veleiro” indica, pois, aos meus olhos, um corpo de pensamentos que impulsionam à Verdade; o “golfo” é a porta de passagem para o conhecimento dessa verdade, ou seja: “rumo à Ilha do Arvoredo/ levando meu coração…”; “mar afora, mar adentro”, a teimosia, ou seja, as dúvidas dessa travessia para o conhecimento. É assim, pois, que vejo esta poesia de Manoel de Andrade. Contudo, sugiro que adquiram o livro CANTARES, onde vocês, caros leitores, vão-se deliciar com a poética desse autor que me orgulha havê-lo conhecido.
Hasta la vista!!! __________
[1] João Batista do Lago é jornalista, poeta, escritor, ensaísta e pesquisador. É maranhense, mas reside em Curitiba há anos. Viajando no "Veleiro" de Manoel de AndradeVIAJANDO NO VELEIRO DE MANOEL DE ANDRADE
© De João Batista do Lago[1]
A saudade é um sentimento que soi ocorre à língua portuguesa tentar expressá-la concretamente, realmente. Nenhum outro idioma consegue, como o português, aproximar-se desse fenômeno que invade a alma humana e que, por mais que nos expressemos, seja por que forma ou género for, sempre faltará “algo” que jamais conseguirá ser dito a respeito desse “sujeito” que é gerado abstrativamente no mais íntimo de cada um. A saudade é um substantivo feminino abstrato. Isso, de per se, revela o grau das dificuldades que temos em “tra-duzir”, ou seja, transportar o sentimento para a palavra (fala = língua) falada, escrita ou ideografada, exatamente porque esse sentimento é sempre uma abstração ou é, sempre fruto do abstrato existencial do ser. Agora, quem dentre os mortais que falam o idioma português mais se aproxima de expressar, concretamente, esse fenômeno? Ouso responder: - O Artista. Sim, os artistas são em-si, de-si, para-si e para além-de-si o ser e o tempo, que há um só tempo sugerem a cri-ação da transferência do sentimento para o campo real, isto é, para realidade temporal, pois são os senhores dos sentimentos e das sensações. Agora, quem dentre os mortais artistas que falam o idioma protuguês são capazes de, ainda mais, se aproximarem da concreção desse sentimento, dessa sensação: Ouso responder: - Os Poetas. Estes pintam quadros imaginários de todos os tamanhos, de todas as cores, de todos os graus, de todas as dimensões, de todas as gradações, com todos os amores ou com todos os horrores possíveis e impossíveis à capacidade de observação do indivíduo. E mais: em todo Ser; em todo Espaço.
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Este micro comentário introdutório me foi exigido a partir de uma tipologia de auto-analítica do conhecimento para poder falar sobre “uma” (enfatizo uma porque há muitas outras de igual beleza estético-conteudística) poesia (poesia e não tão-somente Soneto) de um poeta que o conheci recentemente: Manoel de Andrade, que estreou recentemente um livro de poesias editado pela editora Escritura, e que já aparece na lista dos 100 mais vendidos.
Esta é a poesia:
VELEIRO
Mar afora, mar adentro lá vai singrando um veleiro quem dera ser passageiro pra correr nas mãos do vento.
Mar adentro, mar afora como navega ligeiro cruzando este golfo inteiro nas cores vivas da aurora.
Onde vais assim tão cedo rumo à Ilha do Arvoredo levando meu coração…?
Vou navegando contigo meus olhos te seguem, amigo, perdidos na imensidão. __________ Baia de Zimbros, janeiro de 2005. Do livro CANTARES, editado pela Escritura.
À primeira vista, ou seja, à primeira leitura somos tomados por um sentimento de jovialidade. Explico: se não lemos esta poesia com os olhos de ver e com a consciência do entendimento, com um certo grau de conhecimento ontológico, podemos tê-la e vê-la como uma poesia principiante, e de principiante. Ledo engano! E quão maravilhoso engano percebe-se quando a lemos uma, duas, três… vezes. “Veleiro” é dessas poesias que nos chegam ao íntimo sem a marca do tempo cronológico, sem o emblema de um espaço pré-definido ou definido, além do Tempo e do Espaço que são-de-si essentes. “Veleiro” é atemporal! E aqui reside, desde sempre, o “segredo” desta poesia: é um Universal! E que Universal é este?: a Alma! E que alma é esta?: a Saudade! Cada palavra-contexto desta poesia é produzida de saudade com a alma da saudade: passageiro singrando um mar externo e externo de sentimentos e sensações. Ensina-nos o “velho” Hegel que a Alma sensitiva tem três estágios: (1) a alma senciente em sua IMEDIATIDADE – (quem dera ser passageiro) -, ou vida de sentimento, uma vaga consciência da condição corpórea, associada principalmente à vida intra-uterina; (2) o sentimento de si – (cruzando este golfo inteiro) -, uma vaga consciência de si como indivíduo em contraste com, mas não absorvido em, seus sentimentos particulares: egoísmo, por exemplo, o que é diferente de autoconsciência reflexiva; (3) o hábito, no qual, por constante repetição, sensações e sentimentos tornam-se familiares e, portanto, menos salientes – (levando meu coração… meus olhos te seguem, amigo). Ter hábito é distanciar-se, melhor dizendo, libertar-se dos sentimentos e das sensações. Ou seja: “Veleiro” é o sentimento e a sensação interiorizados e externalizados, mas desprendidos do Eu, o que em essência gera a “alma real”, noutras palavras: a consciência do si, de-si e no em-si. Enfim, “Veleiro”, aos meus olhos, é um eterno vir a ser num “mar adentro/ mar afora” do “sujeito abstrato” que pretende ser-si “sujeito real” num eterno (= temporalidade) vir-a-ser a idéia essente, ou seja, o sujeito real capaz de tran(s)-duzir-si em consciência plena. “lá vai sangrando um veleiro” indica, pois, aos meus olhos, um corpo de pensamentos que impulsionam à Verdade; o “golfo” é a porta de passagem para o conhecimento dessa verdade, ou seja: “rumo à Ilha do Arvoredo/ levando meu coração…”; “mar afora, mar adentro”, a teimosia, ou seja, as dúvidas dessa travessia para o conhecimento. É assim, pois, que vejo esta poesia de Manoel de Andrade. Contudo, sugiro que adquiram o livro CANTARES, onde vocês, caros leitores, vão-se deliciar com a poética desse autor que me orgulha havê-lo conhecido.
Hasta la vista!!! __________
[1] João Batista do Lago é jornalista, poeta, escritor, ensaísta e pesquisador. É maranhense, mas reside em Curitiba há anos. 9 June SÁBADO POÉTICOPARMÊNIDES DE ELÉIA – O Poeta do Ser
Por João Batista do Lago
Ao iniciar este artigo devo dar conta do apaixonante amor que sinto pelo universo helênico. Trago em mim a concepção, melhor dizendo, a convicção conceitual que, ainda hoje, “sofremos” deste mundo arcaico – o mundo Grego -, da conflituosidade do Ser e do não-Ser, assim como todas as suas conseqüências deletérias, insalubres ou mesmo venenosas para o estudo da ontologia ou da metafísica (ambas definem o estudo do ser em geral). Quando digo sofremos tenho a nítida intenção de dizer, de inferir, que continuamos “atolados” no pântano das incertezas humanas. Ainda hoje nos perguntamos: o que somos? O que fazemos aqui? Qual a função e o papel que exercemos? Qual a nossa destinação? Enfim... Ainda hoje não nos contentamos com quaisquer respostas. Ainda hoje continuamos vasculhando o mais profundo de nossas cavernas na tentativa de nos descobrir, de nos desvendar, de nos desvelar, de nos revelar... E para isso utilizamos-nos, o mais que possamos de nossas faculdades mentais na tentativa de sustentar a superioridade da interpretação racional do mundo e a negar a veracidade da percepção sensível. É exatamente neste ponto que Parmênides de Eléia, me atrai, pois, ver, ouvir, escutar, não produz certezas, apenas crenças e opiniões. Vale destacar que, já aqui, ele assevera que erra quem (como Heráclito, por exemplo) deixa-se enganar pelos sentidos e considera a realidade em devir, pois a transformação – uma passagem do ser a um não-ser – não é em si pensável: o não-ser não é jamais pensável, não mais do que ver a escuridão (o não-ser da luz) ou escutar o silêncio (o não-ser do som). Neste artigo – insisto - pretendo debruçar-me sobre uma das figuras arcaicas que mais me chamam a atenção no universo helênico: Parmênides de Eléia, a quem defino não como um Filósofo – pura e tão-somente -, mas como um Poeta filosófico, portanto, o Poeta do Ser. É com este poeta eleata que encontramos, ‘conscientemente’, a origem do pensamento racional e, ainda, é com ele que vislumbramos a elaboração do método. Ouso afirmar, por inferição empírica, que, Descartes e Shakespeare, para ficar apenas nestes dois exemplos, por ora, dele se utilizaram. René Descartes é considerado, universalmente, o “pai” da filosofia moderna, e, William Shakespeare é considerado, universalmente, o “pai” do teatro moderno. Em Descartes encontramos a máxima conhecida de todos: “Penso: logo existo”. Em Shakespeare encontramos o aforismo: “Ser ou não-Ser, eis a questão”. Ora, não é, pois, o Ser e o não-Ser, por excelência, o tema fundamental da poética Parmenidiana? Pois sim! Podemos dizer assim – e disso falam os filósofos do passado e do presente - desse pensador eleata – Parmênides -, sem medo de cometer nenhum erro, que o filho de Eléia era de uma grandeza perturbadora. O rigor de suas argumentações assim como a profundidade de suas análises levou Platão a defini-lo como “venerando” e “terrível”. Mas não só isso, o filósofo de Athenas – Platão – viu-se obrigado a dedicar um diálogo específico – o Parmênides – ao filho de Eléia; reconhecê-lo como pai espiritual e confessar que ao discordar de algumas reflexões parmenidianas cometeria uma tipologia de “parricídio”. Fica clara, assim, a imensa admiração que nutro por este poeta-filósofo (e de resto pelo universo grego) que, infelizmente, e apesar dos inúmeros estudos, pesquisas, escavações histórico-arqueológicas, nos legou, da sua obra, tão-somente 154 versos do poema filosófico Sobre a Natureza. Deste proponho, neste artigo, as leituras 10-14 – estruturado em hexâmetros (versos de seis pés) e dividido em duas partes: Verdade e Opinião.
EM BUSCA DA VERDADE
Nas suas investigações filosóficas Parmênides impõe-se, a si, uma questão até então (hipótese de muitos historiadores) não formulada de maneira tão racional: a busca do conhecimento do que “é” Verdade e do que “é” Opinião. Ele foge, assim, da visão puramente mítica, religiosa ou teológica – muito embora utilize como campo metafórico o abstracionismo dêitico-mítico tão comum naqueles tempos arcaicos – para inferir a racionalidade da sua abordagem poético-filosófica. É toda essa densidade simbólica introjetada no pensamento parmenidiano que cria dificuldades de interpretação do poema, sobretudo na parte primeira quando nos remete à metáfora da viagem. Vejamos:
As éguas que me levam até onde meu desejo quer chegar me acompanharam, após me conduzirem e me colocarem no caminho que diz muitas coisas,/ que pertence à divindade e que conduz o homem que sabe a todos os lugares./ Para lá fui levado.
De fato, para lá me levaram as sagazes éguas, tirando meu carro,/ e as jovens a indicar o caminho./ O eixo do meão soltava um silvo agudo, incandescendo-se (porque premido entre dois rotantes, círculos de um lado e de outro),/ enquanto apressavam o passo, ao me acompanhar, as jovens Filhas do Sol,/ após deixar as casas da Noite, em direção à luz, retirando com as mãos os véus da cabeça.
Lá está a porta das veredas da Noite e do Dia,/ tendo nos dois extremos uma arquitrave e um umbral de pedra;/ e a porta, erguida no éter, é fechada por grandes batentes,/ dos quais a Justiça, que muito pune, tem as chaves que abrem e fecham.
As jovens, então, dirigem-lhe suaves palavras,/ e sutilmente a persuadem a que os ferrolhos/ sem tardar removessem da porta. E logo esta, ao se abrir,/ dos batentes fez uma vasta abertura, fazendo girar/ nos gonzos, em sentido inverso, os brônzeos umbrais/ ajustados com pregos e com ombreiras. Logo, por lá, através da porta,/ direto para a estrada mestra, as jovens levaram carro e éguas.
E a deusa benévola me acolheu, e com a sua mão a minha mão direita tomou,/ e assim começou a falar, dizendo-me:/ “Ó jovem, companheiro de imortais boleeiras, tu, que chegas conduzido pelas éguas à nossa morada, alegra-te, pois não foi infausto o destino que te fez percorrer este caminho/ (de fato ele está fora da via seguida pelos homens), mas a lei divina e a justiça”.
“É preciso que tu tudo aprendas:/ o sólido coração da bem redonda Verdade/ e as opiniões dos mortais, nas quais não há verdadeira certeza./ E, no entanto, também isso aprenderás: como as coisas que parecem deviam verdadeiramente ser, sendo todas em todos os sentidos”.
Antes de tudo, porém, isto é, antes de definitivamente aventurar-me na análise da poemática do eleata, creio que se faz mister aqui introduzir uma questão que é indispensável para a compreensão da poética filosófica de Parmênides: sua poesia decorre de um processo da formação do universo grego, sobretudo no que consiste à Educação. Nesse ponto, Parmênides não foge à regra helênica, qual seja, de considerar que a educação é o princípio por meio do qual o universo grego conserva e transmite para o presente (de) então e para a posteridade as peculiaridades físicas e espirituais. Parmênides entende, desde logo e sempre, que o homem, como espécie animal, continua sendo sempre “um” e a mesma coisa, mas ao mesmo tempo raciocina que somente o Homem consegue disseminar sua condição de ser social, tendo por base a vontade consciente e a razão. Assim é Parmênides! E ouso dizer: aos meus olhos é com Parmênides que fica clara a idéia de que a Educação tem que ser um processo de construção consciente, mesmo quando, apesar de ou a partir de, admitimos que ele fosse oriundo da poética homérico-hesiódica, que já trouxera a preocupação com a formação do Homem grego, a Paidéia, por intermédio de um processo educativo. Mas é preciso dizer que as configurações homérico-hesiódicas eram construídas a partir do campo mítico, quero dizer, a Educação era, em síntese, uma dádiva dos deuses. O Ser, para esses poetas era um não-ser de si, ao contrário de Parmênides que inferiu a idéia do Ser de si. Idéia da construção consciente de si. Idéia do pensar a si. Idéia do pensar-se como “sujeito” (do discurso) responsável da categoria do existir – ou seja: do Ser. Idéia, afinal, do Antropocentrismo. E, para se inserir nesse campo ontológico, Parmênides, criara sua metodologia de investigação a partir de duas categorias: Verdade (alétheia) e Opinião (doxa), isto é, para ele era indispensável estabelecer um método dicotômico, onde, Opinião não passaria de mera crença que se baseia em dados sensíveis e perceptíveis, enquanto que a Verdade era a convicção baseada em argumentações racionais, mesmo quando essas argumentações parecem em total oposição às evidências sensíveis.
* * *
Faço aqui um (novo) recorte para introduzir uma nova e ousada questão conceitual. Aos meus olhos é com Parmênides que vislumbramos (também) a essência do Discurso, ou seja, da Retórica, que será utilizada no futuro próximo e posterior. Os sofistas Protágoras (o mais conhecido dos sofistas, após escrever que não se poderia afirmar que os deuses existem nem que não existem, foi acusado de sacrilégio, condenado e banido de Athenas) e Górgias (viajou por toda Grécia exercendo com sucesso a arte da retórica; era acompanhado de reconhecida fama de dialético, capaz de cogitar raciocínios irrefutáveis como “nada existe”, sua tese mais célebre), por exemplo, tornaram-se mestres nessa arte, ao ponto de escandalizarem os filósofos da época ao fazer do saber uma profissão, oferecendo aulas (pagas) de retórica e de eloqüência aos jovens da classe dirigente que pretendiam dedicar-se à carreira política. Esse movimento é de uma importância histórica fenomenal, pois geraria um cosmopolitismo serial do pensamento e da cultura grega, e em especial da filosofia – em prosa ou verso -, impedindo que o saber grego ficasse, pura e tão-somente, nos limites das províncias helênicas. Os filósofos sofistas tinham por metodologia de ensino o princípio da Razão. Isto lhes valera o epíteto de iluministas gregos. Pois bem, a poética de Parmênides (também) introduz segundo essa minha observação empírica, o conceito de Verdade no interior do discurso ao propor veemente contestação da corrupção (discordo daqueles que vêm nisso apenas antagonismo) da verdade pela opinião, isto é, ele criara aí a sua dialética meta-ontológica e sustentara (em minhas palavras) que o Ser é o sentido da Verdade e a Verdade o sentido do Ser. Noutras palavras o Ser só “é” quando “é” o Ser. Assim, no seu discurso poético-filosófico, Parmênides introduz uma tipologia desesperada de necessidade de fazer sentido, de dar sentido, de constituir-se, de impregnar-se da “pura” razão, e então, converte a Verdade na principal figura de linguagem, seja objetiva, seja subjetiva; noutras palavras em Sujeito e em não-Sujeito. É somente por ela que estabelecemos enunciados e conceitos. É somente por causa dela que nos insurgimos - ou não - contra ou a favor do dito e do não-dito. É somente por sua representação que criamos as linguagens culturais, sociais, políticas, econômicas, artísticas, poéticas, etc. Sem o sentido da verdade ou a verdade do sentido pode-se dizer que tudo o mais não existira. Vida não houvera. E se esta (verdade = ser) não se dera tudo o mais inexistira. Este é o fundamento axiomático antropomórfico do Ser que “é” e do Ser que “não-é”, mas ao mesmo tempo do “Ser que não-é” e do “não-Ser que é”. Essa é a equação complicada do pensamento parmenidiano. Assim é Parmênides! E essa equação virá a ser sustentada ou negada com veemência no futuro por uma plêiade de pensadores – sobretudo por Platão - do mundo antigo e do mundo moderno. Tomando, pois, este axioma como verdadeiro poder-se-á aduzir novos argumentos advenientes - ad valorem - como se fora uma advecção transferencial de um tipo de massa metafísica que se movimenta concretamente em direção a um materialismo não-científico, não-histórico ou historicista, mas metarracional, ou se racionaliza no calor do Logos (saber racional = somente o ser pode ser pensado = Verdade) do locutor e do ouvinte (audiência). É nisso que compreendo a tentativa desesperada de fazer sentido de Parmênides como práxis constitutiva do real e do não-real, principalmente no caso do discurso da forma (Ser), onde se percebe com mais agudeza essa relação hedonista da verdade como fonte de um determinado tipo de prazer imediato do indivíduo que fala, isto é, do sujeito do discurso verdadeiro. Pois bem, esses primeiros versos – assim podemos defini-los - são o Prólogo do discurso poético ontológico e antropomórfico de Parmênides, inserido nessa perspectiva e tentativa desesperada de fazer da Verdade o sentido do Ser. A verdade é, metaforicamente, uma esfera: homogênea, compacta, única e sempre igual a si mesma. Se tomarmos como verdadeira essa minha conclusão empírica veremos que, na outra ponta, por assim dizer, do lado oposto à verdade, ocorre a opinião, que ali se encontra presente dentro de um substrato ideológico (não-verdade), mas que pretende desconstruir a verdade para dar-se sentido de verdade. Mais uma vez chamo atenção para o complicado e hermético pensamento parmenidiano, sobretudo nessa parte do poema, onde o autor grego pretende constituir metaforicamente, por definitivo, a verdade como o Ser verdadeiro e imutável, portanto Absoluto, Uno. E é exatamente deste ponto que surge a idéia do monismo parmenidiano. O complicado jogo de imagens mentais que Parmênides cria para inferir todo o seu conceito de Ser é algo que defino, do ponto de vista estético-semântico - refiro-me especialmente a certo tipo de grafismo visual que permite a audiência “n” significados - de uma beleza incomensurável, e está mesmo concentrado dentro do seu rigor metafórico: é homogêneo, compacto, único e sempre igual a si mesmo; noutras palavras, é mono, é um, é único, é absoluto. Vejamos o que ele se nos apresenta:
E a deusa benévola me acolheu, e com a sua mão a minha mão direita tomou,/ e assim começou a falar, dizendo-me:/ “Ó jovem, companheiro de imortais boleeiras, tu, que chegas conduzido pelas éguas à nossa morada, alegra-te, pois não foi infausto o destino que te fez percorrer este caminho/ (de fato ele está fora da via seguida pelos homens), mas a lei divina e a justiça”.
Temos, nesta estrofe, uma técnica de criação da imagem abstrata parmenidiana que fica impressa no nosso cérebro como foto, donde se vêm os retalhos de uma construção arquitetônica minuciosamente construída para valorizar mais a forma que o conteúdo do Ser. Essa abstração permênica é primorosíssima! Esse artifício é para construir o significado de outra questão (que veremos com mais vagar à frente): a Verdade com Justiça, pois
“É preciso que tu tudo aprendas:/ o sólido coração da bem redonda Verdade/ e as opiniões dos mortais, nas quais não há verdadeira certeza./ E, no entanto, também isso aprenderás: como as coisas que parecem deviam verdadeiramente ser, sendo todas em todos os sentidos”.
E essa “forma” vem da inspiração que recebeu de Homero, Hesíodo e das tradições órficas. Contudo, podemos concluir que há aqui (também) uma certa influência pitagórica: a esfera como figura representacional do Ser verdadeiro. Mas, já aqui, devemos parar auscultar, imaginar, perceber, sentir e pensar. Mas não será isso incoerência com o discurso parmenidiano? Pois é! Assim é Parmênides! Ele nos forçará - desde logo e desde sempre - a nos imbricarmos com a contradição (Ser e não-Ser) entre a verdade e a opinião, e dirá mais à frente que nem todos são capazes de atingir a verdade, ou seja, nem todos irão se constituir em “Ser”, pois continuarão como “éguas” (crentes, sensitivos, perceptivos). Decodifiquemos: poucos se constituirão em “sujeito”, ou, muitos continuarão sendo meros crentes do senso comum, ou seja, niilistas do Ser. Estes são éguas; são conduzidos a lugar nenhum pela opinião que não gera saber e tampouco dar conteúdo ao Ser, ou seja, é preciso abandonar “as casas da Noite, em direção à luz”, isto é, afastar-se da escuridão do senso comum, da pura opinião; para atingir toda a claridade do Sol, e do dia, isto é, toda Sabedoria. Mas isso só pode ser alcançado depois de atravessar as portas que dividem os dois caminhos: o caminho da verdade e o caminho da opinião. Enfim, podemos dizer desta primeira parte do poema de Parmênides o seguinte: levado num carro em corrida vertiginosa, o herói percorre um caminho que se situa fora das trilhas originais dos seres humanos. São virgens, filhas do Sol, que tomam conta dele em seu percurso para a luz. Abre-se a porta que separa “a estrada do Dia e a estrada da Noite”, e o iniciado chega recebido pela deusa bondosa que o toma pela mão e informa-o de um oráculo duplo: ele saberá tudo da verdade e da crença dos mortais. Por certo se deve ter em mente a aventura do conhecimento que, para além das normas da experiência corriqueira, realiza-se e exprime-se enquanto exprime seu objeto num discurso bem estruturado e corretamente concatenado. Favorecido assim pela revelação, o herói fica sabendo que existem duas estradas, noutras palavras, dois procedimentos, dois métodos ou dois estilos para o (seu) discurso. (Mas disso falaremos mais amiúde na próxima parte deste artigo.)
(..................................................................................)
ESTE ARTIGO TERÁ CONTINUIDADE NO PRÓXIMO “SÁBADO POÉTICO”. 28 May PASSAGEIRO DO EUPASSAGEIRO DO EU
Por João Batista do Lago
Sou-me – de mim -, apenas eu – e eu mesmo -, passageiro da própria passagem.
Espelhado em águas de mares reclusos, como nau perdida em alto mar, tornaram-me (re) excluso de portos seguros.
E assim, de posse da minha lepra e da minha loucura, erguido como representação de anti-poder, jamais fui construído sujeito mensurável para ser calculado.
Fizeram de mim um vivo morto – ou morto vivo! - quando me beijou a face, o patrão, no horto das oliveiras, quando me excluíram e me internaram no palácio dos leprosos.
Venturosos da nau dos loucos, de poderes moucos, estabeleceram no campo das açucenas quermesses de dominações sem quaisquer penas.
E lá recluso, e excluso, de mim e do mundo, açoitado pelo poder como qualquer vagabundo continuo louco, recluso e excluso, passageiro da própria passagem.
A nau – este mundo -, leprosário da minh’alma reflete em águas profundas o impuro narciso do poder num vai-e-vem de ondas mortais de loucos e leprosos.
E agora, já definitivamente condenados, todos – e eu -, passageiro da própria passagem já não encontro portas de saída para enfrentar o meu fetiche... Para deitar minha lepra e minha loucura! 23 May DIÁLOGOS DE ATHENAS - Réquiem a São LuisDIÁLOGO DE ATHENAS (Réquiem a São Luis)
Por João Batista do Lago
- Olá, poeta. Há quanto tempo não nos víamos!
- Que olhares, Que visões têm da ilha?
- Carrego ainda olhares de Athenas, Visões de um tempo de querências.
- Ainda bem que podes tê-las, Pois cá não mais a temos... Tudo é demência!
- Da arte que conhecestes pouca coisa restou. Hoje há muita miséria, violência e dor,
os jardins da cidade não têm mais flores, as rosas sumiram, os jasmins secaram.
Sobraram as dores dos desamores e a cidade poeta virou bandida.
Hoje as almas são dormentes ambulantes De um bonde carregado de miseráveis,
de miseráveis criaturas sem espaço, sem rosto, sem fé, vermes sem sacristia,
carentes e tolos viventes de vida sem vida, sem qualquer guarida de telhados e azulejos,
sem histórias, sem eira nem beira, sem mar e sem praias, sem sal e sem terra.
Ó, poeta, as gentes dessa cidade já não têm sol
e nem mesmo a lua flutua em suas almas para lhes sincronizar a sinfonia de Dionísio,
pois elas perderam o riso da harmonia e se tornaram almas mortas de agonias.
A cidade, poeta, hoje é “apenas” alma que pena suas dores e seus horrores,
dissimulada de Athenas sem cantores, sem poetas, sem poesia,
ilhada no besteirol da vaidade comum pensada, apenas, na vermelha lama do consumo.
É assim, hoje, a tua ilha: cercada de grilhões que aprisionam Prometeus nas rochas da ignomínia,
que favorecem os tufões da incompetência que se sentam à mesa dos poderosos
e diante de um lauto manjar exigem dos poetas a continência,
exigem toda reverência para lhes legitimar toda incompetência.
Poeta... Perdemos os telhados. Todos os telhados perdemos.
Perdemos as sacadas. Todas as sacadas perdemos.
Perdemos nossas ruas. Todas as ruas perdemos.
Perdemos nossas fontes. Todas as fontes perdemos.
Não temos telhados, nem as sacadas temos.
Não temos ruas, nem as fontes temos.
Estamos sós... Ilhados estamos. Perdidos – todos – somos, poeta. 21 May THEMISThemis
Por João Batista do Lago
Themis, terra minha que me fez errante Bendita seja! Ó tu que me castigaste a vida Que não me quisestes ter por Zeus Olhai o pranto que derramo Nos prados de almas tantas Infecundas almas de desamores Que se tornaram lentamente Sepulcro de minhas dores E lá do fundo da ossatura do meu viver Ainda resiste um amor infinito Desde a adolescência do nosso tempo Marcado como ferro em brasa Ferida jamais fechada Porta aberta para tua entrada Em qualquer momento da eternidade - qualquer eternidade – Que porventura um dia me pretendas dar
AMOR ANIMALAMOR ANIMAL
Por João Batista do Lago
Como um animal domesticado Aprendi a seguir os teus passos Na ânsia de encontrar os abraços Vindos do teu corpo sem pecado
Ah, os doces e ternos afagos... Mimos, carinhos e ternos beijos Fizeram de mim o teu escravo E pregaram-me na cruz dos desejos
Agora te sou eternamente grato Por esse louco amor apaixonado Mesmo que dele apenas sobra tenha
Ainda assim apaixonado sou Pela volúpia contumaz do teu corpo Que me faz capaz de tanto amor
Curitiba- Paraná/2007 24 March DENÚNCIANÃO MATARAM UM CIDADÃO. NÃO MATARAM UM HOMEM. MATARAM UM NEGRO
Por João Batista do Lago[1]
Acabo de assistir no “Jornal Nacional” (Rede Globo de TV) a notícia de mais um massacre perpetrado contra mais um brasileiro, contra mais um cidadão, contra mais um cidadão negro. Contra mais um negro. Desta feita a vítima (cantor e repentista) era maranhense ou morava em São Luis, capital do Estado do Maranhão, onde nasci. A reportagem da TV Globo não trouxe muitos detalhes sobre o crime. Disse tão-somente que ele, o cidadão negro, fora assassinado por dois policiais (Expedito e Paulo) e que fora confundido, ou seja, a milícia pensou que ele era um assaltante. Fato alvissareiro (se é que se pode dizer isso) é que a alta cúpula da Polícia estadual já admitira que os policiais, já identificados, cometeram de fato o assassinato. Não era minha intenção escrever nada sobre esse fato, mesmo porque estou fora do Maranhão e de São Luis há muito tempo. Minha intenção era apenas refletir sobre o fenômeno. Mas para meu espanto, ao chegar a este “cavalo eletrônico” encontrei minha caixa de recados entulhada de e-mail’s de autoria de amigos e amigas que ainda mantenho por lá, além de outro tanto de pessoas que não as conheço, mas que (não sei explicar as razões) pediam-me para escrever sobre esse animalesco crime; além do pedido emocionado do editor deste portal, para que eu escrevesse algo sobre esse fenômeno. Fenômeno?! Sim, fenômeno! Tomo esse evento como um fenômeno sob os olhos da Filosofia que vê, e indica o que é “aparente” em uma “Coisa”, em contraposição ao que ela é em si mesma. Chamo-o de fenômeno porque traz em si a idéia de que o conhecimento humano jamais pode levar em consideração a realidade de modo absoluto e objetivo, mas perceber as suas “aparências” periféricas imanentes na formação do homem brasileiro – ou seja, exatamente o fenômeno da racialidade brasileira. É exatamente nesse ponto, ou seja, distanciando-me da realidade absoluta e objetiva, da coisa em si, do crime de fato, para perceber concretamente que a morte desse cidadão negro revela a face oculta do racismo nativo que é imanente, imperioso e imperante na formação do homem e da cultura brasileiras. Aos meus olhos, esse trucidamento (como tantos outros que deles sequer temos conhecimento pelo Brasil afora) não deve ser visto pura e tão-somente como uma ação nefasta dos policiais contra cidadãos comuns; mas como um saldo do caldo de cultura que reside, ainda hoje, na macroestrutura do “Estado Terrorista”, seja ele federativo ou nacional, que mantém uma tipologia de aparelho policial repressivo, repressor, excludente e racista, onde o cidadão negro ainda (ou quase sempre) é visto por esse mesmo “Estado Terrorista”, assim como pela maioria da sociedade em que vivemos, como a “aparente coisa”, ou seja, como aquele que aparenta, pela cor da tez, todo crime, todo mau, toda malvadeza, toda perversidade, toda sinistrose. Isso, infelizmente, ainda é o rescaldo do colonizador que arrastamos pelos séculos amém. É, pois, fundamental que saibamos analisar esse fenômeno como uma manifestação de racismo e preconceito, que não está tão-somente na ação assassina dos policiais, mas sobremodo, instalada numa falsa democracia racial existente apenas para uma intelectualidade de inocentes úteis, defensores contumazes deste “Estado Terrorista” brasileiro. 7 March OS RICOS, OS POBRES E A GLOBALIZAÇÃO
Questionar a globalização e suas conseqüências dá-nos a impressão de malhar em ferro frio. Mas será isso mesmo? Devemos nos acomodar e aceitá-la sem quaisquer questionamentos? Devemos admitir, por definitivo, que o Mercado é o nosso “deus”? Devemos introjetar no nosso existir a submissão absoluta às rezas da igreja global? Devemos aceitar a demonização dos que insistem em discordar dos métodos e das metodologias dessa igreja? Essas são questões reflexivas... Dizem os apologistas da globalização, ainda hoje, que ela é a medida exata para diminuir as distâncias entre pobres e ricos; que cabe aos mercados ditar as regras; que compete aos mercados propor e gerir as diferenças entre ricos, novos ricos, pobres e miseráveis. Será isto uma verdade insofismável? Será isso o que vem ocorrendo? Ou será que as nações pobres estão ficando miseráveis e as nações ricas mais trilhardárias, aprofundando assim ainda mais as diferenças? Essas são questões reflexivas... Aos meus olhos, a globalização, é um engodo. É a forma mais sutil, porém a mais vil, a mais estúpida e a mais selvagem fonte de dominação de povos e nações pobres e miseráveis por parte das nações ricas. A queda das tais barreiras comerciais não passa de pura desterritorialização dos Estados-Nação que, assim, ficam vulneráveis e unicamente dependentes de um tipo de capital virtual que, num clique pode varrer do mapa nações e povos do terceiro, quarto ou quinto mundos. Mas assim como para toda e qualquer ação temos uma contra-ação natural e original, assim está ocorrendo com a globalização (e não é de hoje!) que teimava em não mostrar, em segregar, em esconder, em reprimir a miséria e a pobreza existentes no mundo, sob o discurso de que o mercado iria resolver tais questões. Ledo engano. Os formuladores da globalização jamais imaginariam que a miséria e a pobreza, com a queda das tais barreiras comerciais, também se introduziriam como mercadoria ou moeda de exportação. E agora o que fazer com esse paradigma? Pois é. Esqueceram-se os ideólogos da globalização que a pobreza e a miséria poderiam constituir-se em causa-efeito desse mesmo paradigma universal: a globalização. Paradoxalmente essa mesmíssima globalização que serve para engordar a “burrinha” dos ricos, não dimensionaria uma vertente: a migração da pobreza e da miséria que se estão espalhando pelos seus quintais, noutras palavras, que se estão globalizando entre as nações ricas. Em Londres (Inglaterra), por exemplo, jamais se vira, antes do advento da globalização, vendedores de hot-dog em frente ao palácio da rainha-mãe, que chegou inclusive a ficar incomodada (e reclamar) com o odor que exalava do apetitoso “cachorro quente”, bem conhecido entre nós, brasileiros. Esse é apenas um exemplo emblemático e com todas as tintas para a pintura de quadro surracionalista. Quanta ironia! 24 February REALIDADE BRASILEIRAPor que a elites e a neoburguesia brasileiras se ouriçam quando se fala em Guerra Civil?
Por João Batista do Lago[1]
Esta questão ocorreu-me após uma entrevista que dei ao jornalista Mhário Lincoln, editor do portal MHARIO LINCOLN DO BRASIL[2], no domingo de carnaval, mas veiculada somente na quarta-feira de cinzas, onde, muito ligeiramente falei sobre essa questão. Para meu espanto, minhas palavras imediatamente à veiculação causaram uma tipologia de “ouriçamento” na audiência do site: 1) visível, e 2) invisível. E isso, para mim, foi uma excelente descoberta (e creio, a será para o jornalista Mhário Lincoln), ou seja, a home tem uma audiência que mostra a cara, que não tem medo de interagir, que não se esconde; e outra: que não se expõe, que se esconde, que é covarde, e que ainda por cima, quando seu nome é exposto na penumbra pede para não ser identificada. Deste fato ocorre-me a seguinte conclusão: a) a existência de uma elite e uma burguesia saudável e b) a existência de uma elite e uma burguesia arrogante, prepotente, discriminatória e preponderantemente ditatorial, e o pior de tudo, insensível às questões nacionais, isto é, preocupadas pura e tão-somente com o enchimento de suas burrinhas e o “brutal” enriquecimento, em contraste com 90% de um povo-nação de miseráveis e pobres. Com aquela (a) pode-se concatenar conversação, debate, discussão, e até justapor ou contrapor idéias no sentido de uma saída para nossas agruras como violência, crime, miséria, pobreza, educação, saúde, favelização... Com esta (b) é impossível quaisquer concatenações, pois, seu método é o já conhecido anonimato e suas práticas ameaçadoras. A esta (b) este meu aviso em forma de poesia, minha arma letal, que jamais se apagará, “apesar de você”:
Negação
Não aceitarei jamais A decisão faceira De me enquadrares Dentro do quadrado Mágico da ordem Bem-estabelecida. Essa tua guarida É pura morte Morte da palavra Que se calada Fica de toda ferida Nos currais da ordem. Tirai o tapete estendido Dele não me utilizarei Minha passagem será livre Será escarlate – bem sei Portanto não te ofereças tanto A quem amor não te tem. Quanto ao teu corrupto vintém Assegura-o em tua desgraça Ele não se fará mordaça Da livre palavra que graça Em toda praça com raça Deste povo que não é chalaça. =*= (In EU, PESCADOR DE ILUSÕES, LAGO, João Batista do - Ed. Mhario Lincoln do Brasil, 2006 – 1ª Edição – E - Book Grátis)[3]
Feitas estas considerações vamos ao que interessa, ou seja, tentar responder a questão que intitula este artigo: Por que as elites e a neoburguesia brasileiras se ouriçam quando se fala em Guerra Civil? Antes de tudo, porém, vale dizer que minhas palavras (como bem foi observado por alguns dos interragentes da entrevista) não contêm em si nada de novo. Isto é fato. Antes de dizê-las muitos já manifestaram o mesmo pensamento. Portanto, nada há de novo naquilo que disse ao jornalista Mhário Lincoln. E reflete pura e tão-somente uma manifestação pessoal, melhor dizendo, uma representação da minha mente que teima em não ficar adormecida pelo ópio do Poder, da Dominação, da Burguesia e das Elites que não têm o Brasil como referência, mas seus intestinos. E que, por isso mesmo, pouco se lhes dá em discutir o Brasil real, posto que, o que se lhes interessa é o brasil (com “b” minúsculo) do carnaval, da mulata, do samba, do futebol – manifestações culturais que já nem mais são do povo-massa ou do povo-nação – como “sujeitos operadores” de uma país de alienados. Eis, aqui, a metáfora implícita na “guerra civil” por mim ditada. E neste sentido não tiro uma palavra, uma vírgula sequer, do que declarei. E repito: este país precisa da sua guerra civil para constituir-se como nação, para criar sua identidade e sua cultura próprias. E isto significa dizer, noutras palavras: as elites brasileiras, com o beneplácito das burguesias nacionais, sobretudo essa elite que não mostra a cara, que está escondida nos porões do capitalismo nacional, nos palácios, nos governos, nas instituições, falharam. E falharam feio. Tome-se como exemplo as palavras de um dos maiores intelectuais que esta nação já produziu, o antropólogo Darcy Ribeiro; brasileiro consciente como poucos ou como nenhum outro: “O povo brasileiro pagou, historicamente, um preço terrivelmente alto em lutas das mais cruentas de que se tem registro na história, sem conseguir sair através delas, da situação de dependência e opressão em que vive e peleja. Nessas lutas índios foram dizimados e negros foram chacinados aos milhões, sempre vencidos e integrados nos plantéis de escravos. O povo inteiro, de vastas regiões, às centenas de milhares, foi também sangrado em contra-revoluções sem conseguir jamais, senão episodicamente, conquistar o comando de seu destino para reorientar o curso da história”. E diz mais adiante o professor Darcy Ribeiro: “Ao contrário do que alega a historiografia oficial, nunca faltou aqui, até excedeu, o apelo à violência pela classe dominante como arma fundamental da história. O que faltou, sempre, foi espaço para movimentos sociais capazes de promover sua reversão. Faltou sempre, e falta ainda, clamorosamente, uma clara compreensão da história vivida, como necessária nas circunstâncias em que ocorreu, e um claro projeto alternativo de ordenação social, lucidamente formulado, que seja apoiado e adotado como seu pelas grandes maiorias”. E enfatiza o professor Darcy Ribeiro: “Não é impensável que a reordenação social se faça sem convulsão social, por via de um reformismo democrático. Mas ela é muitíssimo improvável neste país em que uns poucos milhares de grandes proprietários podem açambarcar a maior parte de seu território, compelindo milhões de trabalhadores a se urbanizarem para viver a vida famélica das favelas, por força da manutenção de umas velhas leis. Cada vez que um político nacionalista ou populista se encaminha para a revisão da institucionalidade, as classes dominantes apelam para a repressão e a força”. Tão claras são as palavras do professor Darcy Ribeiro que dispensam comentários, mas servem para serem introjetadas e pensadas por todos que não se encontram adormecidos pelas benesses dessa “classe dominante”, mas que prefiro continuar chamando de elites brasileiras. Por outro lado, e por fim, quero encerrar este artigo dizendo o seguinte: minha gênese é o barro do debate, da discussão, e em razão disso aceito, muito embora não concorde ou discorde veementemente dos seus enunciados ou conteúdos discursivos ou ideologias, que sejam postas à mesa, mas ao mesmo tempo sou radicalmente contrário às manifestações academistas ou academicistas, com ar de uma tipologia de professorado, como aquelas que desejam esconder a verdade mais-que-real dentro do campo de um pretenso saber conceitualístico, oriundo de reservas compilatórias de bibliotecas virtuais; assim como não aceito, sob hipótese quaisquer, o encavernamento - por intermédio de um escapismo barato - do núcleo do debate, como aquele que se diz simplesmente que tudo não passa de mero sensacionalismo. Aos defensores desta arte retórica resta-me assinalar o seu grau de aculturação sócio-político, e bem dizê-los promissores defensores da “classe dominante”. [1] João Batista do Lago, 56, é jornalista, poeta, teatrólogo e escritor. [3] Solicitar livro: mhario@globo.com |
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