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    January 30

    O VERBO VERBERANTE

    O VERBO VERBERANTE

     

    Mhário Lincoln (*)

     

    Se para o Velho Testamento, em Gênesis, “no começo era o VERBO”, para João Batista do Lago, o poeta, a Palavra tem pasto livre, ama e odeia feito besta fera.

    E se no Novo Testamento Jesus pronunciou o “vinde a mim as criancinhas”, o poeta João Batista do Lago asseverou: A los niños desesperanzados (...) são indulgentes (...)  del capitalismo carrasco.

    Fez-se luz à sombra hermética dos pseudolançamentos do pós-modernismo à classitude ferina dos sonetos e poemas. Fez-se lua à poesia moderna, sem varinha mágica. Mas com muita imprudência racional, o que a torna bela e sensível, real, mas chocante, lasciva, mas empolgante:

    - Ah, como eu queria ter podido ficar com todas as putas...

    Poesia romântica até demais à lá “Te amo tanto, que te esqueço”:

    - No meu laboratório de visões/busco toda sua presença./Nela não me há.

    Frágil, mas ecológico-saudosista:

    - Sapo Cururu,/Na beira do Itapecuru,/Há tanta saudade mirim,/Do Itapecurumirim.

    Acima, fantástica regressão poética, com estrume e cheiro de memoráveis picardias e assim, João Batista do Lago, o poeta, vai parindo seus anseios, devaneios e mágoas. Desilusões. Paraísos, com Éden e sem maçã:

    - O cadáver da vida/floresceu entre os parreirais/O Diabo lho fizera prece/Deus e o diabo beberam/do mesmo vinho dionisíaco/

    Entre as páginas João Batista do Lago pari seu próprio ventre, numa dor pungente, mas com força lírica invejável - morro-me a cada instante – auto-exílio pré-litium, supra-exílio pós-litium. Exemplo claro da força do meio ultrapassando a ganância da métrica. Mesmo assim, há lampejos dilacerados de prazer mitológico:

    - A vaca de Ébano (...) Transforma o belo no teatro do imundo –.

    Ou, ainda, lampejos discursivos entre o óbvio – O canto não canta a rima não versa. E o cartesiano: – Apenas os idiotas pensam que o “Eu” é o único dos sujeitos.

    Mas como nem sempre de poesia vive o Homem, João Batista do Lago conseguiu enveredar pela trilha do protesto, da mesma forma como outros protestaram na força de cada versículo. Isto me lembrou o latino Nicanor Parra, nascido num mundo acostumado a cultuar Pablo Neruda e Gabriela Mistral. Lembro de Nicanor Parra haja vista sua polêmica versicular, contestante e contestável, características íntimas de ambos, pois ambos já foram considerados antipoetas.

    Parra, por seu lado, é perfeito influente de toda uma geração de poetas rebeldes das Américas. João não fica atrás. Dele, também recebeu energia. Suas poesias-protesto, incluídas no livro, também influenciaram a logomarca jorrante das idéias poéticas centrais do conteúdo de – Nas Vinhas do Pescador de Ilusões – que ora, me orgulha lê-lo.

    Por isso, não é à toa que João Batista do Lago e eu, juntos, a cada lambida de página, navegamos delirantemente sob a égide das nossas lutas internas, postulantes insigths de nossos eu’s revolucionários:

    – Essa ambígua ordeiricidade brasileira (...) Sob este manto praticam-se o terrorismo social e econômico, o político e o cultural, abstrusos (...) Prestai atenção, ó brasileiros! (...) Povo deserdado, vexado e proscrito. Ou mais: Irmãos dos campos (...) é hora de guarnecer;  esta, uma chamada própria da militância antieclesiástica, antijesuíta; anti-simonica. Ah! Esse João Batista, hoje, rio Jordão, amanhã, Tietê; ou verso-vice.

    João da hora do Ângelus:

    – Queres impor-me a não-razão? (...) Donde surge o Ângelus mortal sobre as consciências vérmicas (...).

    João mítico:

    – Atentai para o fogo das ventas.

    João desértico, até onde seus males espanta, desapaixonado e pugnaz. Cada linha da trama organográfica de seus poemas investem sempre na firmeza do que raciocina; orgasmo literário puro!

    - Nenhuma dor é tamanha/ Que nela não me contenha.

    Olha o João com a dor do parto; parindo linhas autopensantes, cheias de explosão carismática, de sensibilidade magnética. Afinal, quem lê este João Batista de todos os Lagos, sente imediatamente sua energia magnética corroendo o bestunto dos incrédulos e moendo a medula dos hipócritas:

    - Enganar é preciso; votar não é preciso não... com precisão.

    Destarte, de TORMENTAS até REGRESIÓN, vivencio uma viagem inesquecível pelo cérebro de um homem nascido no interior do Maranhão, em Itapecuru Mirim, mas fugaz no hábito de revirar a terra brasilis ou da América Latina, na incessante busca de encontrar as minhocas fantasmas, escondidas em montinhos de terra-santa, embutidas nas meias colegiais, transformadas em bola de chute, escondidas no fundo de seus armários de pau-d’arco roxo.

    Pela viagem, lendo a obra, notei que o autor acabou recorrendo a astúcia para se enveredar cedíssimo pelas dunas da criação, lendo e relendo clássicos afrodisíacos assexuados, reforçando sua base empírica na observação do Mundo ou dos seus vários Mundos.

    Escapuliu de Itapecuru Mirim, rodou o Brasil, e de repente viu-se em Buenos Aires, entre calafrios, nos becos das tangarias ou sob um lampião, nas livrarias que nunca dormem.

    Finalmente, ao arregaçar as últimas páginas do livro - Nas Vinhas do Pescador de Ilusões - chego à conclusão incomum: só escreve tais versos quem tem asas de homem–pássaro; ou, paradoxalmente, quem consegue, numa ponta livreira, cativar-se com Edgar Allan Poe e Franz Kafka; Fernando Pessoa e Machado de Assis; Hegel e Marx; e sonhar com Miguel de Cervantes, servir de laboratório para as agruras dantescas. Num outro beiral de intelectualidade João Batista do Lago tenta encontrar na pedra filosofal, desde os Milésios – Tales, Anaximandro e Anaxímenes, passando por entre os caminhos dos ensinamentos de Sócrates, Platão e Aristóteles; pelos Sofistas Protágoras e Górgias; entre os Cínicos e Céticos Diógenes e Pirro; os Estóicos e Escolásticos; chegando por fim a Kant, Nietzsche, Schopenhauer e Kierkegaard, até atingir toda a história do pensamento dos frankfurtianos e seus pós. Ou chorar ouvindo Gardel. Talvez por isso – Regresión – componha seu vetusto intelectual.

    E... se o homem pari, João Batista pariu um livro rico em consciência, livre de enxertos apelativos, iluminado em luz própria, vagalumiado por certezas, incertezas, dores... até, pasmem, um Feliz Natal.

    Eis seu êxodo intestino:

    – Neste Natal eu gostaria de desinternar-me. Dar-me alta. Gostaria de ser entendido.

    Assim é João Batista do Lago. Homem-Bala, no picadeiro da vida: Do Sul ao Norte poético em alguns segundos. Como num piscar d’olhos vai do telúrico ao estado de nirvana:

    – Estou debruçado na janela do mundo.

    Mas consciente, não se esvai, volátil, e preconiza:

    - nas asas da liberdade serei salvo.

    João Batista do Lago está salvo, sim! Viva a boa poesia brasileira.

     

    (*)

    MHÁRIO LINCOLN

    Jornalista e advogado

    Editor-chefe do portal

    www.mhariolincoln.jor.br

    Mhário Lincoln do Brasil

     

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